ANÁLISE · ELEIÇÕES 2026 · 3 DE OUTUBRO
Lula chega à véspera da votação com uma vantagem muito menor do que tinha em 2022. Flávio Bolsonaro aparece mais competitivo do que seu pai estava na última pesquisa daquele primeiro turno. A comparação aponta uma disputa mais apertada, mas não permite antecipar o vencedor.
Na última pesquisa Datafolha antes do primeiro turno de 2022, Lula tinha 50% dos votos válidos e Jair Bolsonaro, 36%. A diferença era de 14 pontos percentuais. No levantamento divulgado neste sábado, 3 de outubro de 2026, Lula aparece com 45% e Flávio Bolsonaro, com 42%: uma distância de três pontos.
A leitura exige separar duas perguntas. Quem está à frente na pesquisa atual? Lula, numericamente. Quem se beneficia da comparação com a posição ocupada pelo adversário em 2022? Flávio, que começa a votação com uma distância menor para o líder.
Flávio está em posição mais competitiva do que Jair estava na pesquisa final de 2022. Isso não transforma a comparação em previsão de vitória. O retrato atual mantém Lula numericamente à frente, em empate técnico com o adversário, considerada a margem de erro divulgada.
Uma vantagem que passou de 14 para três pontos
Entre os dois retratos, Lula aparece cinco pontos abaixo de seu percentual de 2022. Flávio tem seis pontos a mais do que Jair registrava naquela pesquisa. A distância nominal entre os dois principais candidatos diminuiu 11 pontos.
São diferenças entre eleições, não movimentos medidos dentro de uma mesma campanha. Não se pode concluir, por exemplo, que todos os pontos a menos de Lula migraram para Flávio: candidatos, participação eleitoral e contexto político mudaram.
Primeiro turno: as duas pesquisas finais
Votos válidos · barras na mesma escala, de zero a 60%.
O que a margem de erro permite dizer
A pesquisa de 2026 tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Na leitura usual desses intervalos, os 45% de Lula vão de 43% a 47%; os 42% de Flávio vão de 40% a 44%. A sobreposição permite falar em empate técnico.
Isso não significa que os candidatos tenham exatamente o mesmo apoio. Também não estabelece que cada um tenha 50% de chance de vencer. A margem expressa a incerteza da estimativa; não converte uma pesquisa de intenção de voto em cálculo de probabilidades eleitorais.
O que se pode afirmar é mais restrito: a vantagem numérica de Lula é pequena o suficiente para exigir cautela. A comparação com 2022 reforça essa cautela, porque mostra uma distância inicial muito menor.
Em 2022, a urna revelou uma disputa mais próxima
O resultado oficial daquele primeiro turno foi de 48,43% para Lula e 43,20% para Jair Bolsonaro. A vantagem efetiva ficou em 5,23 pontos, abaixo dos 14 pontos indicados pela última pesquisa.
A diferença entre o percentual pesquisado e o resultado foi de menos 1,57 ponto para Lula e mais 7,20 pontos para Jair. A distância entre os dois ficou 8,77 pontos menor na urna do que no levantamento.
2022: pesquisa final e resultado das urnas
Votos válidos · mesma escala de zero a 60%.
O desempenho de Jair não pode ser transferido para Flávio
O resultado de 2022 é uma advertência contra conclusões definitivas a partir da última pesquisa. Mas não oferece uma fórmula de correção para 2026.
Somar automaticamente 7,20 pontos ao percentual de Flávio seria supor que a diferença observada com Jair se repetirá, na mesma direção e intensidade, com outro candidato. Os dados apresentados não sustentam essa suposição.
A comparação identifica uma posição inicial mais competitiva. Não demonstra uma vantagem oculta de tamanho conhecido.
Diferença entre pesquisa e resultado não explica, sozinha, sua causa. Mudanças na decisão de voto, comparecimento desigual e limitações do levantamento são questões que exigem investigação própria. Estes números não permitem escolher uma explicação nem projetar sua repetição.
O cenário é mais compatível com segundo turno
Para vencer a eleição presidencial no primeiro turno, é necessário obter mais da metade dos votos válidos. Os 45% de Lula e os 42% de Flávio ficam abaixo desse patamar.
A pesquisa, portanto, aponta para uma segunda rodada. Mesmo o limite superior do intervalo usual de Lula, de 47%, permanece abaixo da maioria absoluta. Isso fortalece a leitura de segundo turno no retrato pesquisado, sem tornar o intervalo uma barreira matemática para o resultado real.
Votos válidos excluem brancos e nulos. Por isso, seus percentuais não devem ser misturados aos de perguntas calculadas sobre todos os entrevistados.
Na simulação de segundo turno, outra disputa apertada
O mesmo Datafolha registra Lula com 47% e Flávio com 46% na simulação de confronto direto. Aqui, a base é de votos totais, e não de votos válidos. A diferença de um ponto também está dentro da margem de erro.
Simulação de segundo turno em 2026
Votos totais · os dois percentuais não incluem todas as categorias de resposta.
Há também uma lição de 2022 que impede confundir desempenho acima da pesquisa com vitória final: Jair se aproximou de Lula no primeiro turno, mas perdeu o segundo. Naquela rodada decisiva, o resultado foi de 50,90% para Lula e 49,10% para Jair.
Afinal, qual candidato é mais favorecido pela comparação?
Flávio é favorecido pela comparação histórica de competitividade. Em relação ao percentual de Jair na pesquisa final de 2022, ele aparece mais próximo do líder e com uma parcela maior dos votos válidos.
Lula conserva a vantagem numérica no levantamento atual. Ainda assim, sua posição é menos confortável do que a registrada quatro anos antes. A proximidade exige maior atenção ao comparecimento dos eleitores e às decisões tomadas na reta final.
Essas duas conclusões coexistem. A redução da distância beneficia a posição relativa de Flávio; a liderança observada segue com Lula. Nenhuma delas, isoladamente, responde quem vencerá.
O que o eleitor pode esperar
O cenário pesquisado é de um primeiro turno competitivo e de provável necessidade de uma nova votação. Se houver segundo turno, os apoios dos demais candidatos e as escolhas de seus eleitores passam a integrar uma disputa diferente.
Também importa quem comparece às urnas. Uma pesquisa mede respostas de uma amostra; o resultado depende dos votos efetivamente registrados. Em uma disputa próxima, diferenças de participação podem ganhar peso, mas estes levantamentos não quantificam seu efeito futuro.
Durante a apuração, resultados parciais exigem cuidado: regiões e seções podem ser totalizadas em ritmos diferentes. Uma liderança provisória não substitui o resultado consolidado.
50% não bastam para vencer no primeiro turno. É preciso superar a metade dos votos válidos. Além disso, percentuais divulgados em pesquisas são arredondados e sujeitos à incerteza: não equivalem a uma contagem definitiva de votos.
Metodologia dos levantamentos comparados
| Informação | Pesquisa final de 2022 | Pesquisa final de 2026 |
|---|---|---|
| Instituto | Datafolha | Datafolha |
| Entrevistas | 12.800 | 4.006 |
| Municípios | 310 | 122 |
| Coleta em 2026 | — | 2 e 3 de outubro |
| Margem de erro divulgada | 2 pontos percentuais | 2 pontos percentuais |
| Registro no TSE | BR-00245/2022 | BR-01708/2026 |
O levantamento de 2026 foi contratado pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo. Os gráficos de primeiro turno usam votos válidos; a simulação de segundo turno usa votos totais. As diferenças em pontos percentuais foram calculadas a partir dos percentuais publicados.
A comparação reduz a segurança de qualquer prognóstico. Lula lidera numericamente, Flávio está mais perto do que Jair aparecia em 2022 e o retrato disponível aponta para uma eleição apertada. A experiência anterior recomenda cautela; não autoriza transformar uma diferença passada em resultado futuro.