A rejeição de Jorge Messias pelo Senado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal não é apenas uma derrota pontual para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É, sobretudo, um diagnóstico político severo: o governo demonstrou, de forma inequívoca, uma incapacidade alarmante de articulação institucional em uma das pautas mais estratégicas de qualquer presidência da República.
A indicação ao STF está longe de ser uma matéria secundária. Trata-se de uma das expressões mais concretas de poder político de um chefe de Estado. Nomear um ministro para a Suprema Corte significa influenciar, dentro dos limites constitucionais, o pensamento jurídico de uma geração. Quando um presidente falha justamente nesse terreno, o recado emitido pelo Congresso é brutal: falta força, falta coordenação, falta comando.
Não se trata apenas de Jorge Messias. O que foi rejeitado, na prática, foi a autoridade política do Planalto.

Um governo que não consegue construir maioria para aprovar sua própria indicação ao Supremo expõe sua fragilidade de maneira quase humilhante. A base governista, que deveria operar como linha de defesa e sustentação, mostrou-se porosa, inconsistente ou simplesmente inexistente diante de uma votação decisiva. Pior: revelou que, mesmo em temas centrais, o governo parece refém de adversários que compreendem melhor o jogo político do que o próprio Palácio do Planalto.
Governabilidade não é discurso. Governabilidade é capacidade de impor vitórias estratégicas.
E aqui emerge uma questão inevitável: de que adianta vencer eleições, conquistar o Palácio do Planalto e manter a Presidência, se não há capacidade real de exercer poder? De que serve uma eventual vitória em 2026 se um novo mandato significar apenas a repetição de um governo acuado, incapaz de consolidar nomeações, aprovar agendas estruturantes ou enfrentar sabotagens parlamentares?
A política não perdoa hesitação prolongada. Ao tentar governar conciliando irreconciliáveis, tratando sabotadores como parceiros institucionais e apostando excessivamente na moderação diante de forças que operam permanentemente para desgastar o governo, Lula corre o risco de transformar capital eleitoral em paralisia administrativa.
A rejeição de Messias sugere justamente isso: a estratégia de acomodação pode estar se convertendo em impotência.
Se o governo pretende preservar alguma capacidade de liderança, será necessário reconhecer uma verdade dura: inimigos políticos que atuam para inviabilizar o projeto governista precisam ser tratados como adversários reais, não como aliados potenciais. Isso exige radicalizar — no sentido político, não antidemocrático — a defesa de pautas de interesse popular, mobilizar sua base social de forma mais intensa, tensionar o debate público e abandonar a ilusão de que concessões sucessivas produzirão estabilidade.
Porque estabilidade sem poder é apenas aparência.
A derrota no Senado não precisa ser o fim de uma capacidade de reação, mas pode se tornar símbolo de um governo progressivamente esvaziado caso não produza uma inflexão estratégica imediata. Ou Lula redefine sua lógica de enfrentamento político, reorganiza sua base e assume com clareza o conflito inerente ao poder, ou corre o risco de assistir à própria governabilidade ser corroída por dentro.
A lição é simples e dura: vencer nas urnas não basta. Sem força para governar, a vitória eleitoral pode se tornar apenas um mandato formal — e um presidente sem capacidade de exercer poder real não governa; administra limites impostos por seus adversários.