
Às vésperas de completar 120 anos, neste ano de 2026, o Açude Cedro, em Quixadá, volta ao centro de uma pergunta que há décadas ecoa entre moradores, historiadores e lideranças locais: o maior símbolo da engenharia hídrica do Ceará finalmente receberá a atenção que seu valor histórico, cultural e econômico exige ou seguirá relegado ao abandono?
Inaugurado em 1906, o Cedro é reconhecido como o primeiro grande açude público construído no Brasil, marco da política de combate às secas no Nordeste e referência internacional da engenharia hidráulica do início do século XX. Mais do que uma obra de infraestrutura, o reservatório integra a identidade de Quixadá e do Ceará e ocupa lugar central na memória coletiva do sertão cearense. Vez por outra, quando quer identificar o povo cearense, o governo do Estado utiliza a imagem da Pedra da Galinha Choca, famoso monólito composto por três rochas unidas, como símbolo do Ceará.
Apesar dessa relevância, o espaço permanece subaproveitado. Com estrutura deteriorada, áreas interditadas e ausência de um projeto consistente de revitalização, o açude segue distante do potencial turístico que poderia exercer. Em uma cidade marcada por paisagens naturais únicas e crescente fluxo de visitantes, o Cedro poderia funcionar como um polo de turismo histórico, cultural e ambiental, capaz de gerar emprego, renda e dinamizar a economia local. Mas é só isso.
Especialistas e defensores do patrimônio apontam que o equipamento reúne condições para receber investimentos em infraestrutura turística, como centro de visitação, sinalização histórica, trilhas guiadas, espaços culturais, eventos educativos e integração com o turismo dos monólitos. Iniciativas desse tipo poderiam inserir o Cedro de forma definitiva no circuito turístico do Ceará, ampliando o tempo de permanência dos visitantes em Quixadá. Pode-se dizer que o desprezo ao potencial do espaço é um dos maiores crimes contra a economia e dignidade do povo quixadaense.
Neste ano de 2026, quando o açude completará 120 anos, surge a oportunidade estratégica para que governos federal e estadual assumam compromissos concretos, em parceria com a prefeitura local, com a preservação e valorização do espaço. Até o momento, no entanto, não há um único anúncio público de um plano robusto de revitalização ou de celebração institucional da data. Até agora, os 120 anos do Cedro não geraram qualquer gesto de boa vontade. Como o ano é eleitoral, é provável que surjam ao menos novas promessas.
A administração do Açude Cedro é de responsabilidade do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), órgão federal que detém a gestão do equipamento. A ausência de investimentos estruturantes levanta questionamentos sobre o papel do órgão e a articulação com estados e municípios para garantir a preservação de um patrimônio que ultrapassa fronteiras locais.
Mais do que uma obra do passado, o Cedro representa uma possibilidade concreta de futuro. A dúvida que permanece é se 2026 marcará uma virada histórica, com início de planejamento para ações efetivas de valorização, ou se o centenário ampliado do açude passará, mais uma vez, quase invisível aos olhos do poder público.
Para Quixadá, a resposta a essa pergunta pode significar não apenas o resgate de sua história, mas a abertura de um novo ciclo de desenvolvimento econômico e cultural. Seguimos esperando pelo fim do descaso vergonhoso.
