A frase publicada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) — “basta o Brasil trocar o CEO para voltar a funcionar” — resume um equívoco recorrente entre gestores públicos que confundem governo com administração privada. A metáfora empresarial, embora sedutora por sugerir eficiência e resultados, ignora que um país não é uma corporação: é uma sociedade complexa, diversa e desigual, que exige liderança política, empatia social e compromisso com o bem comum.

Um CEO responde a acionistas; um governante responde a cidadãos. A lógica do lucro, própria do setor privado, busca maximizar ganhos e reduzir custos — mas a lógica de um Estado democrático deve priorizar direitos, inclusão e justiça social, mesmo quando isso não gera retorno financeiro imediato. Tratar o Brasil como empresa é ignorar que políticas públicas não podem ser guiadas apenas por índices de produtividade, e sim pela redução de desigualdades e pela promoção de oportunidades reais para quem está à margem.

A comparação é ainda mais perigosa porque alimenta a ilusão de que problemas estruturais — fome, pobreza, déficit habitacional e desigualdade racial — podem ser “resolvidos” apenas com gestão técnica e metas de desempenho. Nenhum país se torna mais justo apenas com eficiência administrativa. O que melhora as sociedades é o investimento contínuo em educação, saúde, segurança pública e infraestrutura social — áreas que exigem visão de longo prazo, empatia e responsabilidade fiscal, mas também moral.

Quando um governante defende a substituição de um “CEO” como solução para o país, sugere que a nação é um ativo em crise que precisa de outro gestor. Mas o Brasil não precisa de um executivo de planilha; precisa de liderança com projeto nacional, algo que parece inexistente no debate à direita, ao centro e à esquerda. Um projeto que enfrente a desigualdade, garanta o básico para todos e entenda que o progresso não se mede em lucro, mas em dignidade.

A administração pública, de qualquer que seja seu viés ideológico, deve, sim, se inspirar em boas práticas de gestão, mas jamais se submeter a uma lógica meramente empresarial que transforma cidadãos em números e direitos em custos. O Estado existe para servir àqueles de quem seu poder emana, não para gerar dividendos políticos ou econômicos. E é justamente por isso que a demanda é de governantes comprometidos com dignidade para todos — não de CEOs.

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