Entre os inúmeros legados deixados pelo Império Romano ao mundo ocidental, um deles atravessou séculos e permanece vivo até hoje: a base cultural da celebração do Natal. Embora atualmente associada ao cristianismo, a data de 25 de dezembro e vários costumes natalinos têm raízes diretas em rituais pagãos praticados na Roma Antiga dedicados às suas deidades.

Durante mais de cinco séculos, o Império Romano foi essencialmente politeísta. Ainda assim, quando o cristianismo passou a se consolidar como religião dominante, antigas tradições foram incorporadas e ressignificadas, em vez de simplesmente substituídas. É possível afirmar que, na troca, não apenas houve uma parcela significativa de “cristianização do paganismo”, mas também – e principalmente – uma significativa “paganização do cristianismo”.

Saturnália e o solstício de inverno

A principal ligação entre Roma Antiga e o Natal está na Saturnália, festival dedicado ao deus Saturno, celebrado a partir de 17 de dezembro, conforme ilustrado nas figuras acima e abaixo. O rito marcava o solstício de inverno no calendário juliano, período simbólico de “renascimento” do ano.

Durante a Saturnália, normas sociais eram temporariamente suspensas, com abundante licenciosidade. Senhores e escravos trocavam de papéis, havia festas públicas, banquetes, decoração das casas com folhagens e árvores, acendimento de velas e troca de presentes — práticas que ecoam claramente nas celebrações natalinas atuais.

A historiadora Marguerite Johnson, da Universidade de Newcastle, na Austrália, explica que Saturno era visto como o deus do tempo, da agricultura e da ordem cósmica. Com os dias mais curtos e a terra em repouso, agradar essa divindade era entendido como essencial para garantir fartura e equilíbrio no novo ciclo.

O nascimento do Sol e o nascimento de Cristo

Além da Saturnália, os romanos celebravam em 25 de dezembro o Natalis Solis Invicti, o nascimento do Sol Invicto, divindade associada à luz, à vitória e à renovação. Registros do Calendário de Filócalo, do século IV, indicam a importância dessa data no calendário romano.

É justamente nesse contexto que surge a associação com o nascimento de Jesus. Segundo o historiador Diarmaid MacCulloch, professor da Universidade de Oxford, a escolha do 25 de dezembro não tem base bíblica, mas simbólica.

A escolha de 25 de dezembro como a data do nascimento de Jesus não tem nada a ver com a Bíblia; ao contrário, foi uma escolha bastante consciente e explícita de usar o solstício de inverno para simbolizar o papel de Cristo como a luz do mundo. Os costumes festivos e desregrados da Saturnália na mesma época do ano naturalmente migraram para a prática cristã, uma vez que no século 4º o cristianismo estava se tornando mais proeminente na sociedade romana. As novas crenças seriam mais bem aceitas se não entrassem em conflito com antigos costumes não cristãos.

Diarmaid MacCulloch, professor de história da Igreja na Universidade de Oxford, no Reino Unido

A adoção da data também facilitava a aceitação do cristianismo, pois não entrava em choque direto com costumes já enraizados na população romana.

Essa celebração era realizada em homenagem ao deus Saturno (daí o nome) e sempre foi caracterizada pelo relaxamento da ordem social e pelo clima de carnaval. Ele era o deus do tempo, da agricultura e das coisas sobrenaturais. Como os dias encurtavam e de alguma forma a terra morria de forma simbólica, era necessário que o deus do tempo e da comida ficasse feliz. Como parte das festividades, os romanos trocavam presentes: velas, chinelos de lã, chapéus e até meias. E o faziam entre famílias, enquanto os escravos desfrutavam de tempo livre. No almanaque do século 4, o Calendário de Filocalus, menciona-se uma celebração do Invictus em 25 de dezembro, que é provavelmente uma referência ao ‘Sol Invicto’. E é nesse documento que se faz a primeira menção que 25 de dezembro é o nascimento de Jesus.

Marguerite Johnson, historiadora da Universidade de Newcastle, na Austrália

A consolidação do “Natal cristão”

O processo de incorporação foi gradual. À medida que o cristianismo se expandia em Roma, práticas pagãs foram reinterpretadas sob uma nova ótica religiosa. No século IV, entre os anos 320 e 353, o papa Júlio I fixou oficialmente o Natal em 25 de dezembro.

Em 449, o papa Leão I elevou a data à condição de uma das principais festas da Igreja Católica. Já em 529, o imperador Justiniano declarou o Natal feriado oficial do Império Romano.

Com isso, consolidou-se a ideia de que Jesus teria nascido em dezembro, embora nem os evangelhos nem os historiadores tenham mencionado a data exata.

Contexto bíblico

Quando Jesus nasceu?

A Bíblia não informa a data do nascimento de Jesus Cristo. Isso é comprovado pelas obras de referência a seguir:

“A verdadeira data do nascimento de Cristo é desconhecida.” — New Catholic Encyclopedia (Nova Enciclopédia Católica).

“Não se sabe a data exata do nascimento de Cristo.” — Encyclopedia of Early Christianity (Enciclopédia do Cristianismo Primitivo).

Embora a Bíblia não informe diretamente quando Jesus nasceu, ela fornece duas evidências que já convenceram muitas pessoas de que ele não nasceu em 25 de dezembro.

O censo

Pouco antes de Jesus nascer, César Augusto emitiu um decreto ordenando “que toda a terra habitada se registrasse”. Todos tinham de se apresentar “na sua própria cidade”, o que em alguns casos poderia envolver uma viagem de uma semana ou mais. (Lucas 2:1-3) Essa ordem — provavelmente emitida com o objetivo de arrecadar impostos e recrutar pessoas para o Exército — já causaria insatisfação no povo em qualquer época do ano. Assim, é pouco provável que Augusto provocasse seus súditos ainda mais por obrigar muitos deles a fazer longas viagens na época do inverno.

As ovelhas.

Os pastores estavam “vivendo ao ar livre e mantendo de noite vigílias sobre os seus rebanhos”. (Lucas 2:8) O livro Daily Life in the Time of Jesus (A Vida Diária na Época de Jesus) observa que os rebanhos ficavam ao ar livre da “semana antes da Páscoa [no fim de março]” até meados de novembro. Daí, acrescenta: “Eles passavam o inverno em abrigos; e só com base nisso podemos ver que é improvável que a data tradicional do Natal esteja certa, visto que o Evangelho diz que os pastores estavam nos campos.”

Tradições pagãs que atravessaram séculos

No século XV, o historiador italiano Polidoro Virgilio identificou semelhanças diretas entre ritos pagãos e costumes natalinos, como a inversão simbólica de papéis sociais, prática comum tanto na Saturnália quanto em festas natalinas medievais.

Apesar das discussões acadêmicas sobre a data exata do nascimento de Jesus, a influência romana permanece evidente. A troca de presentes, as reuniões familiares, as luzes, o vinho e a celebração do “renascimento” são heranças de rituais com mais de dois mil anos.

Hoje, ao redor de uma árvore decorada ou em uma ceia de Natal, centenas de milhões de pessoas seguem celebrando uma tradição que nasceu muito antes do cristianismo, moldada pela Roma Antiga e dedicada a seus deuses.

ENTENDA

A origem do espírito de Natal e da árvore de Natal nas linhas da Bíblia

Tudo começou com Ninrode, neto de Cam, filho de Noé, descrito como um governante cruel e violento. De acordo com esse relato histórico-religioso, Ninrode teria se casado com sua própria mãe, Semíramis, em um contexto marcado pelo desprezo por Deus e pela moralidade.

Após a morte prematura de Ninrode, Semíramis passou a ensinar que ele havia se tornado um deus espiritual. Segundo essa crença, uma árvore sempre-verde teria surgido da noite para o dia a partir do tronco de uma árvore morta, simbolizando a renascença de Ninrode para uma nova vida. Ela também afirmava que, no aniversário de sua morte, celebrado no final de dezembro, Ninrode visitaria essa árvore e deixaria presentes nela.

“Ora, a acha de Natal é o tronco morto de Ninrode, deificado como o deus-sol, mas cortado pelos seus inimigos; a árvore de Natal é Ninrode redivivus — o deus morto revivificado.”
— Professor Hislop, The Two Babylons, páginas 97 e 98

Com o passar do tempo, Ninrode passou a ser venerado como o “filho divino do céu”, o “Messias, filho de Baal, o deus-sol”. Seus seguidores acreditavam que a vida e a imortalidade provinham dele e, por isso, adoravam o sol como a personificação de sua divindade. Mãe e filho, Semíramis e Ninrode, tornaram-se figuras centrais de culto no mundo pagão.

No Egito, eram conhecidos como Ísis e Osíris; na Ásia, como Cibele e Deio; na Roma pagã, como Fortuna e Júpiter-puer. Relatos semelhantes aparecem ainda na China, no Japão, no Tibete e em outras regiões. Esses símbolos eram venerados muito antes do nascimento de Cristo, mas acabaram sendo incorporados à tradição da cristandade e associados ao chamado “espírito do Natal”.

A própria Catholic Encyclopedia reconhece que o Natal não fazia parte das celebrações mais antigas da Igreja. Segundo a obra, teólogos como Ireneu e Tertuliano sequer incluíram a data em suas listas de festas cristãs.

Fonte: jw.org — wol.jw.org