Entre 1936 e 1937, o fotógrafo e cinegrafista libanês Benjamin Abrahão registrou em filme o cotidiano de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e de seu bando de cangaceiros. O material, gravado em película de 16 milímetros, mostra o grupo em cenas autênticas no sertão nordestino, dançando, posando para a câmera e exibindo seu estilo peculiar, com roupas bordadas, armas ornamentadas e chapéus de couro adornados.
O homem e o mito do cangaço
Lampião, apelido de Virgulino Ferreira da Silva, foi o mais famoso líder do cangaço no sertão nordestino, atuando principalmente nas décadas de 1920 e 1930.

Entre o combate às forças policiais e o saque de fazendas, o grupo também era conhecido por ajudar comunidades pobres, o que fez de Lampião uma figura ambígua, vista por uns como herói e por outros como criminoso.
A vida dos cangaceiros era marcada pela violência, pelo nomadismo e por um código próprio de conduta. A era do cangaço chegou ao fim em 1938, quando Lampião, Maria Bonita e parte de seu bando foram mortos na Grota de Angico, em Sergipe.
Censura e esquecimento
Após a edição do filme, em 1937, o governo de Getúlio Vargas determinou a apreensão das imagens sob o argumento de que poderiam exaltar criminosos e prejudicar a política de pacificação do Nordeste. Com isso, a obra foi esquecida por décadas e só veio a ser redescoberta anos depois, quando pesquisadores encontraram cópias deterioradas em arquivos e acervos particulares.
Importância histórica
Hoje, as filmagens de Benjamin Abrahão são consideradas um dos registros visuais mais valiosos da história do Brasil. O material representa o único documento em movimento conhecido sobre Lampião e seus cangaceiros, oferecendo uma visão realista e rara de um dos períodos mais marcantes do sertão nordestino.
O filme também é reconhecido como um marco do documentarismo brasileiro, por ter capturado sem mediação o cotidiano do cangaço, entre a vida, a luta e o mito.