O frasco rosa presente há décadas em banheiros de todo o Brasil carrega uma história pouco conhecida no Ceará. O criador do Leite de Rosas foi Francisco Olympio de Oliveira, nascido em 1878 em Quixadá. Órfão ainda jovem, ele deixou a cidade na adolescência, empurrado pela seca que castigava o Sertão Central no fim do século XIX.

A primeira parada foi o Rio de Janeiro, então capital da República, onde trabalhou na abertura de estradas e em atividades braçais. O início difícil foi apenas o ponto de partida de uma trajetória marcada por deslocamentos, negócios arriscados e reinvenções constantes.

Francisco Oliympio é cearense e criou o famoso “Leite de Rosas” Crédito: Leite de Rosas/divulgação

Ciclo da borracha, política e pecuária

Com o avanço do ciclo da borracha, Francisco seguiu para Manaus, onde investiu em fazendas de seringais. O declínio rápido da atividade o levou, em 1912, à cidade de Itacoatiara, onde passou a atuar no ramo da pecuária.

Em Itacoatiara, além de empresário, Francisco Olympio ingressou na vida pública e chegou a ser eleito prefeito do município. Em 1920, casou-se com Maria de Lourdes, iniciando uma fase que mesclou ascensão social e profundas perdas pessoais.

Mudanças forçadas e retorno ao Rio

Conflitos políticos locais e a morte sucessiva de filhos recém-nascidos marcaram o período seguinte. O casal decidiu deixar o Amazonas e se mudou para a Bahia, tentando novamente a sorte na venda de gado zebu. O empreendimento não prosperou, e Maria de Lourdes entrou em depressão.

Sem alternativas, Francisco e a esposa venderam o que restava e retornaram ao Rio de Janeiro. Passaram a viver em uma pensão simples na Rua Ipiranga, número 51, no bairro das Laranjeiras. Foi nesse cenário modesto que nasceu a fórmula que mudaria definitivamente a trajetória do casal.

O nascimento do Leite de Rosas

A ideia do cosmético vinha sendo amadurecida desde os tempos de Manaus. Na pensão, Francisco desenvolveu uma fórmula à base de óxido de zinco, cloreto de benzalcônio, sorbitol, digluconato de clorexidina, álcool, água e essência, voltada para a limpeza eficaz da pele.

As primeiras unidades do Leite de Rosas foram produzidas artesanalmente, com a ajuda de um amigo farmacêutico e da própria esposa, dentro de um dos quartos da pensão. As caixas de madeira eram fechadas a marteladas sincronizadas com a passagem do bonde na rua, para não incomodar os vizinhos.

Consolidação nacional

De acordo com o site oficial da marca, a empresa foi registrada em 29 de julho de 1929, sob o nome de F. O. de Oliveira Ltda. Em cerca de cinco anos, o produto já alcançava consumidores em todo o país.

Inicialmente vendido em frascos de vidro, o cosmético acabou ganhando as embalagens plásticas cor-de-rosa que se tornaram marca registrada e ajudaram a popularizar o produto entre diferentes gerações.

A história de Francisco Olympio de Oliveira conecta o Sertão Central cearense, o ciclo da borracha amazônico, a política municipal e a indústria cosmética nacional, revelando como um quixadaense deixou uma marca permanente no cotidiano brasileiro.