Qual é a relação de Flávio Bolsonaro com a morte da menina Ana Clara?

Menina foi atingida quando brincava na porta de casa, em Niterói. O nome do senador aparece entre os advogados de um recurso que tentou afastar o julgamento pelo júri popular. O policial nega ser o autor do disparo fatal.

Ana Clara Gomes Machado sorrindo em um brinquedo de parque, em fotografia anterior à sua morte.
Ana Clara Gomes Machado tinha 5 anos quando morreu, em fevereiro de 2021. Foto: Reprodução/ONG Rio de Paz, via Folha de S.Paulo.

Ana Clara Gomes Machado brincava na porta de casa quando foi atingida por um disparo, em 2 de fevereiro de 2021. Tinha 5 anos. Socorrida ao Hospital Estadual Azevedo Lima, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, não resistiu.

Mais de cinco anos depois, sua história chegou ao debate presidencial. O nome de Flávio Bolsonaro (PL) está no processo, entre os advogados do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de matar a menina. O senador integrou a defesa em uma tentativa de impedir que o caso fosse julgado por jurados.

Essa é a ligação documentada: Flávio atuou na defesa do acusado. Não participou da ação policial nem é acusado de envolvimento na morte da criança.

Uma criança na porta de casa

A morte aconteceu na comunidade Monan Pequeno, na região de Pendotiba. Segundo a reconstrução publicada pela Capricho, Ana Clara estava com o irmão, de apenas 2 anos, quando foi baleada.

O policial foi preso em flagrante horas depois. Na cobertura feita ainda em 2021 pelo jornal A Tribuna, familiares já atribuíam o disparo à ação da Polícia Militar. Em maio daquele ano, parentes e amigos protestaram em frente ao Fórum de Niterói.

À reportagem de A Tribuna, a mãe, Cristiane Gomes da Silva, contou que a perda havia destruído sua vida. A tia, Ana Cristina, resumiu uma preocupação que ultrapassava o processo:

“Nem todo mundo que mora em comunidade é bandido.”

Ana Cristina, tia de Ana Clara, em entrevista a A Tribuna, em maio de 2021.

O que a acusação afirma — e o que o policial contesta

O Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou Delaroli por homicídio qualificado. A acusação sustenta que o cabo atirou com um fuzil em direção a uma área residencial e assumiu o risco de matar. Segundo a Promotoria, não havia confronto armado.

O policial apresenta outra versão. Afirma que reagiu a criminosos armados e nega que o tiro que atingiu Ana Clara tenha saído de sua arma. A defesa também questionou a preservação do local e a confiabilidade de elementos utilizados na investigação.

Essas controvérsias chegaram ao Superior Tribunal de Justiça. No julgamento de um habeas corpus, em abril de 2025, o tribunal registrou a existência de provas periciais e depoimentos de testemunhas presentes no local que sustentavam o encaminhamento ao júri.

O STJ não decidiu, naquele momento, se Delaroli era culpado. Manteve o caminho para que a acusação fosse examinada pelo tribunal competente.

Flávio Bolsonaro no estúdio do debate presidencial da Band, em 18 de outubro de 2026.
Flávio Bolsonaro durante o debate da Band, no qual foi questionado sobre sua atuação na defesa do policial. Foto: Renato Pizzutto/Band.

Onde aparece o nome de Flávio

O registro pode ser consultado no próprio STJ. No acórdão do agravo regimental no Agravo em Recurso Especial 2.240.835/RJ, o nome Flavio Nantes Bolsonaro aparece entre cinco advogados, acompanhado da inscrição na OAB do Distrito Federal.

A Quinta Turma negou o recurso por três votos a dois, em abril de 2024. A maioria aplicou uma regra processual: a defesa não havia contestado de maneira específica todos os fundamentos que impediram a admissão do recurso na origem. O resultado manteve o encaminhamento do policial ao júri.

Da prisão aos recursos: o caminho do processo

  1. 2 de fevereiro de 2021 Ana Clara é baleada em Niterói e morre. Delaroli é preso em flagrante.
  2. Novembro de 2021 A Justiça determina o envio ao júri. No mesmo mês, a prisão preventiva é substituída por medidas cautelares.
  3. Março de 2022 O Tribunal de Justiça do Rio mantém a decisão de levar o acusado a julgamento popular.
  4. Abril de 2024 O STJ nega, por três votos a dois, o recurso em cujo acórdão Flávio aparece como advogado.
  5. Abril de 2025 Outro habeas corpus não é conhecido pelo STJ, por unanimidade. A decisão de encaminhar o caso ao júri permanece.
  6. Agosto de 2025 Segundo a Folha, torna-se definitiva a decisão sobre a ida ao júri, após recursos também no STF.
  7. Outubro de 2026 O julgamento ainda não ocorreu. A defesa informa previsão para o início de 2027.

O que Flávio e a defesa dizem

No debate da Band de domingo, 18 de outubro, Lula questionou a participação do adversário no caso. Flávio respondeu que o exercício da advocacia não poderia ser criminalizado e ressaltou que o policial ainda não havia sido julgado.

Em manifestação publicada pela Folha, o advogado Paulo Klein afirmou que convidou o senador para integrar a defesa e que ambos atuaram regularmente. Sustentou a inocência do policial e negou que a defesa tivesse praticado atos para adiar o julgamento. Atribuiu o adiamento à impossibilidade de o juízo presidir a sessão.

A soltura ocorreu em novembro de 2021, com imposição de medidas cautelares. Liberdade durante o processo não significa absolvição, assim como a decisão de levar um acusado ao júri não equivale a uma condenação.

O confronto eleitoral devolveu visibilidade ao caso. Para a família, porém, a espera começou muito antes do debate: em fevereiro de 2021, quando Ana Clara saiu de uma brincadeira na porta de casa para um hospital. O processo avançou por diferentes tribunais. O julgamento sobre sua morte continua pendente.