A tentativa de reaproximação entre Brasil e Estados Unidos sob uma eventual nova gestão de Donald Trump foi marcada por uma revelação alarmante. Segundo parlamentares brasileiros que participaram de reuniões em Washington, a Casa Branca já estabeleceu seus termos: para aceitar negociar com o Brasil, Trump quer humilhar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicamente, de maneira semelhante ao que fez com Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia.

A exigência foi relatada por senadores presentes no primeiro dia de visitas a autoridades e empresários norte-americanos, nos bastidores da Câmara de Comércio Brasil-EUA e de escritórios de advocacia ligados à Casa Branca. “Trump precisa sair com a sensação de vitória, mesmo que o acordo não seja tão vantajoso”, ouviu a comitiva. A lógica de “performance política” como pré-condição para o diálogo ganhou contornos ainda mais preocupantes com outras imposições.

Pressão para rompimento com a China

Um dos pontos centrais exigidos pelo entorno de Trump é o distanciamento imediato entre o Brasil e a China. Os Estados Unidos esperam que Lula reverta a atual aproximação com o presidente Xi Jinping e passe a priorizar exclusivamente os interesses norte-americanos. A relação estratégica e comercial entre Brasil e China, especialmente nos setores de agronegócio e infraestrutura, seria vista como um obstáculo à influência total dos EUA sobre o governo brasileiro.

Para senadores da base e até da oposição, a proposta foi vista como irrealista. “Sem a China, o Brasil estaria completamente vulnerável”, admitiu um dos parlamentares presentes, sob condição de anonimato.

Exigência de arquivamento do julgamento de Bolsonaro

Outro entrave apontado nas conversas foi a situação judicial do ex-presidente Jair Bolsonaro. Trump, que enxerga o processo contra seu aliado como “perseguição política”, teria exigido que o Brasil interrompesse imediatamente o julgamento. A medida, no entanto, é considerada inegociável pelo governo brasileiro, por representar interferência direta na soberania nacional e na independência do Judiciário.

O processo contra Bolsonaro, que tramita no Supremo Tribunal Federal, é um dos principais “pontos irritantes” na relação com os EUA, segundo fontes com acesso à Casa Branca. Para Trump, Lula tem poder para interferir, mas escolhe não fazê-lo.

Tarifas e retaliações

A crise diplomática ocorre a apenas 72 horas da entrada em vigor do tarifaço imposto por Trump contra produtos brasileiros. O percentual de taxação pode chegar a 50%, e deve afetar diretamente setores como o de laranja, café e carne. A empresa mais atingida, a Embraer, já se manifestou sobre o impacto, embora tenha classificado a situação como grave, mas “ainda administrável”.

Francisco Gomes Neto, CEO da companhia, afirmou que a Embraer seguirá buscando soluções junto ao governo federal e que “o cenário é preocupante, mas não desesperador”.

Lula adota tom conciliador, mas rejeita imposições

Em meio ao impasse, o presidente Lula evitou confronto direto com Trump e reforçou o desejo de diálogo. “Espero que o presidente dos EUA reflita sobre a importância do Brasil e resolva fazer o que, num mundo civilizado, a gente faz: tem divergência? Senta numa mesa, coloca a divergência de lado e vamos resolver”, disse o presidente nesta segunda-feira.

Mesmo com o tom moderado, auxiliares do Planalto descartam qualquer possibilidade de o Brasil aceitar humilhações públicas ou abrir mão de sua soberania para agradar interesses externos.

Caminhos alternativos e o peso da China

Apesar da tensão com os EUA, autoridades brasileiras veem espaço para avanços em outros fronts. Um possível desdobramento positivo é o fortalecimento do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, impulsionado pelas críticas internas ao pacto EUA-Europa. Países como França e Alemanha já demonstraram desconforto com os termos firmados por Ursula von der Leyen com Trump.

Além disso, o Brasil pode explorar caminhos diplomáticos com o G20, no qual mantém protagonismo, e reforçar sua posição como um ator global independente.

O recado de Washington

A mensagem que os senadores brasileiros trazem dos EUA é clara: Trump quer o Brasil de joelhos. Sem isso, não haverá acordo. Para o governo Lula, no entanto, aceitar tais condições é abrir mão da dignidade nacional. E isso, ao menos por enquanto, parece fora de cogitação.