
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia recusar o convite feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para integrar o recém-anunciado Conselho da Paz, iniciativa voltada inicialmente à discussão do conflito na Faixa de Gaza. Diante do movimento americano, o Palácio do Planalto passou a intensificar articulações diplomáticas com países considerados estratégicos, sobretudo no âmbito do Brics. As informações são do jornal Valor Econômico.
A reação brasileira ganhou força após a surpresa causada pelo lançamento antecipado do conselho por Trump durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Segundo avaliações internas, a diplomacia brasileira não tinha indicação de que o anúncio seria formalizado naquele momento, o que levou o governo a adotar cautela antes de qualquer posicionamento público definitivo.
Na quinta-feira (22), Lula dedicou grande parte de sua agenda a contatos telefônicos com lideranças internacionais. Pela manhã, conversou com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, atual presidente do Brics. O diálogo teve caráter estratégico, já que cabe à Índia convocar uma eventual reunião extraordinária do grupo, caso os países decidam construir uma posição conjunta sobre a iniciativa dos Estados Unidos.
Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Lula e Modi trataram não apenas da situação em Gaza, mas também da necessidade de reformas no sistema multilateral. Em nota oficial, o governo informou que ambos “reafirmaram sua convicção a respeito da necessidade de uma reforma abrangente das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança”, além de reiterarem o compromisso com a paz, o multilateralismo e a democracia.
Ainda no mesmo dia, o presidente brasileiro conversou com o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, abordando perspectivas para a reconstrução da Faixa de Gaza e o andamento das discussões sobre um plano de paz. Um dia antes, Lula já havia tratado do tema em telefonema com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.
De acordo com interlocutores do Planalto, a estratégia é ampliar o diálogo com parceiros internacionais antes de anunciar qualquer decisão formal sobre o convite de Trump. A avaliação é de que uma posição articulada com países do Sul Global daria maior peso diplomático à eventual recusa brasileira.
O Conselho da Paz foi apresentado por Trump como um fórum destinado a contribuir para o fim do conflito em Gaza, com possibilidade de atuação futura em outros cenários de crise. O presidente americano afirma que a iniciativa não pretende substituir nem enfraquecer o papel da Organização das Nações Unidas.
No Mercosul, a postura brasileira contrasta com a de outros países do bloco. Os presidentes do Paraguai, Santiago Peña, e da Argentina, Javier Milei, aceitaram o convite e participaram da cerimônia de lançamento do conselho em Davos.