Documento promete manter programas sociais em geral, mas não detalha o futuro do auxílio a estudantes. Monitoria remunerada e bolsas técnicas têm objetivos e condições diferentes.

Flávio Bolsonaro em fotografia de arquivo.
Flávio Bolsonaro (PL). Foto: reprodução/ICL Notícias.

O programa de governo de Flávio Bolsonaro (PL) sequer menciona o Pé-de-Meia pelo nome. Nas 76 páginas do documento examinado pelo DQ Notícias, o benefício não recebe qualquer proposta específica de continuidade, ampliação ou mudança. O plano do candidato, porém, descreve de maneira genérica a remuneração de alunos que trabalhem oferecendo reforço escolar e a possibilidade de empresas financiarem bolsas de formação técnica.

Para as famílias atendidas pelo Pé-de-Meia, a questão é concreta: o estudante continuará recebendo apoio financeiro para permanecer na escola? A promessa geral de manter programas sociais não detalha como esse auxílio seria tratado.

O que Flávio promete manter

Na página 42, o programa apresenta um compromisso geral com a continuidade dos programas sociais existentes:

“Por isso, o compromisso é claro e vem em primeiro lugar: vamos manter os programas sociais existentes, com aperfeiçoamento da gestão, correção de distorções e combate às fraudes.”

A página 9 também afirma que serão mantidos e aperfeiçoados os programas sociais, “porque nenhum brasileiro pode ficar para trás”.

Essa promessa pode abranger o Pé-de-Meia. O documento, entretanto, não esclarece se o benefício continuaria no mesmo formato, com os mesmos valores, o mesmo público e as mesmas regras. Também não explica quais mudanças de gestão ou correções seriam aplicadas especificamente a esse auxílio.

Como funciona o Pé-de-Meia hoje

O programa oferece incentivo financeiro a estudantes de baixa renda do ensino médio público que atendam aos critérios de participação. Os pagamentos estão associados à matrícula, à frequência, à conclusão escolar e à participação em exames, conforme as regras de cada incentivo.

Para o incentivo de frequência, é exigida presença mínima de 80% nas aulas. As condições escolares do Pé-de-Meia não incluem dar reforço a outros estudantes.

Fonte: informações oficiais da Caixa sobre o Pé-de-Meia ↗.

Monitoria: dinheiro por uma atividade adicional

Na página 35, Flávio apresenta o Programa Acolher. A proposta prevê remunerar um aluno com bom desempenho para ajudar colegas que tenham dificuldade de aprendizagem:

“E, para o aluno com dificuldade ao longo do ensino fundamental, vamos criar o Programa Acolher: um aluno com bom desempenho é remunerado para dar reforço aos colegas que precisam, de forma remota ou presencial.”

O trecho situa o reforço escolar no ensino fundamental, enquanto o Pé-de-Meia atende estudantes do ensino médio. O plano não informa a idade ou a etapa escolar dos alunos que atuariam como monitores, nem o valor da remuneração.

A diferença central está na finalidade do pagamento. No Acolher, a renda está ligada à atividade de ensinar colegas. No Pé-de-Meia, o apoio busca estimular a permanência e a conclusão dos estudos, dentro das condições do programa.

Reforço escolar pode contribuir para a aprendizagem. Mas um jovem com dificuldade para aprender também pode precisar de renda para continuar estudando, mesmo sem condições de assumir uma função de monitor.

Cartão do programa Pé-de-Meia apresentado durante a entrega de cartões em Brasília, em março de 2024.
Cartão do Pé-de-Meia em imagem de arquivo, de março de 2024. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Bolsas técnicas: empresas poderão financiar

Na página 36, o documento propõe ampliar a educação técnica para alunos do ensino médio e aproximar a formação das necessidades das empresas. O plano descreve uma parceria com o setor produtivo e acrescenta:

“Nessa parceria, o setor produtivo poderá custear bolsas de formação técnica, financiando a qualificação dos profissionais de que precisa.”

A palavra “poderá” apresenta uma possibilidade de financiamento. O trecho não estabelece uma obrigação das empresas, a quantidade de beneficiários ou o valor das bolsas. Também não informa se o apoio seria pago ao estudante ou destinado ao custeio da formação.

Preparar um jovem para uma profissão e ajudá-lo financeiramente a permanecer na escola podem ser políticas complementares. A formação técnica, sozinha, não garante o auxílio à permanência.

As três medidas têm funções diferentes

No celular, deslize o quadro para os lados para comparar as medidas.

Regras do Pé-de-Meia e propostas descritas nas páginas 35 e 36 do plano de Flávio.
Aspecto Pé-de-Meia Programa Acolher Bolsas técnicas
Situação Programa existente. Proposta de criação. Possibilidade de financiamento em parceria com empresas.
Objetivo Estimular a permanência e a conclusão do ensino médio público. Oferecer reforço a alunos com dificuldades no ensino fundamental. Qualificar estudantes para as necessidades do setor produtivo.
Apoio financeiro Incentivos ligados a condições escolares e critérios de participação. Remuneração ao aluno que oferece reforço aos colegas. Bolsas que o setor produtivo poderá custear.
O que o plano detalha Não cita o benefício pelo nome nem especifica seu futuro. Prevê reforço remoto ou presencial, sem definir valores ou a etapa escolar dos monitores. Não define valores, alcance nem a forma de repasse das bolsas.

A comparação distingue o programa em funcionamento das propostas do documento; não indica que uma medida substituirá outra.

O que ainda precisa de uma resposta

A leitura crítica do plano revela uma diferença de detalhamento: monitoria remunerada e parceria com empresas aparecem expressamente. O futuro do Pé-de-Meia fica coberto apenas pela promessa geral de manter programas sociais.

Isso permite cobrar esclarecimentos específicos:

  • Continuidade: o Pé-de-Meia seria mantido com quais valores, regras e público atendido?
  • Financiamento: como seriam assegurados os recursos e os pagamentos do auxílio?
  • Relação entre as medidas: monitoria e bolsas técnicas seriam apoios adicionais? Como se relacionariam com o incentivo à permanência escolar?

Se a remuneração por monitoria ocupasse o lugar de um auxílio à permanência, o pagamento passaria a depender de uma atividade adicional. Seria necessário explicar como atender também quem não pode ensinar colegas, quem não participa de formação técnica e quem vive em locais sem empresas dispostas a financiar bolsas. Essa substituição, porém, não é anunciada no documento.

Para as famílias, a resposta que falta é sobre o apoio ao estudante para continuar na escola: quais pagamentos seriam preservados, para quem e sob quais condições.