Mercado de trabalho avança, enquanto juros elevados e compromissos financeiros reduzem a folga no orçamento das famílias.
Redação DQ Notícias
O Brasil chega ao primeiro turno das eleições, neste domingo (4), com recorde de pessoas trabalhando e crescimento da renda real. Ao mesmo tempo, o endividamento atinge o maior percentual da série da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), e quase três em cada dez famílias têm contas em atraso.
Os indicadores, reunidos em reportagem da Folha de S.Paulo publicada neste sábado (3), ajudam a explicar um cenário em que a melhora no trabalho convive com dificuldades para fechar as contas.
Mais trabalho e renda maior
Segundo a PNAD Contínua, do IBGE, o desemprego ficou em 5,3% no trimestre de junho a agosto de 2026, ante 5,6% no mesmo período de 2025. É a menor taxa para um trimestre encerrado em agosto desde o início da série, em 2012.
Taxa de desemprego no trimestre encerrado em agosto.
Pessoas ocupadas, maior contingente da série histórica.
Rendimento médio mensal real habitual de todos os trabalhos.
Fonte: IBGE. Brasil, junho a agosto de 2026. O rendimento real considera o efeito da inflação.
A renda média cresceu 3,7% em um ano. O emprego com carteira no setor privado, excluindo trabalhadores domésticos, alcançou 39,5 milhões de pessoas. A informalidade correspondia a 37,5% da população ocupada.
Dívidas ocupam espaço no orçamento
A pesquisa da CNC mostra que 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em agosto, repetindo o recorde de julho. O levantamento considera compromissos como cartão de crédito, carnês, cheque especial, empréstimos e financiamentos.
Famílias com dívidas a pagar.
Famílias com contas em atraso.
Famílias que declararam não ter condições de pagar as dívidas atrasadas.
Fonte: CNC, agosto de 2026. Cada percentual se refere ao total de famílias pesquisadas; os grupos se sobrepõem.
A comparação com os meses de agosto de eleições presidenciais anteriores mostra o aumento do endividamento. Em 2022, eram 79% das famílias; em 2026, são 82%.
| Ano | Percentual de famílias |
|---|---|
| 2010 | 59,1% |
| 2014 | 63,6% |
| 2018 | 60,7% |
| 2022 | 79% |
| 2026 | 82% |
Dados de agosto de cada ano. Fonte: CNC, em levantamento apresentado pela Folha de S.Paulo.
Juros altos e maior pressão sobre quem ganha menos
A Selic está em 13,75% ao ano, após a redução anunciada pelo Banco Central em setembro. Apesar dos cortes, o custo do crédito continua elevado.
Em artigo publicado em 30 de setembro no Blog do Ibre, da Fundação Getulio Vargas, os pesquisadores Pedro Avelino, Flávio Ataliba Barreto e João Mário Santos de França apontam maior peso de modalidades emergenciais e caras nas novas contratações de crédito.
Segundo os autores, a pressão é mais intensa nas famílias de menor renda. Quando prestações e juros consomem uma parcela maior dos rendimentos, diminui a margem para outras despesas e imprevistos. Eles também avaliam que o alívio dos cortes da Selic tende a chegar gradualmente.
O cenário econômico na disputa eleitoral
De acordo com a Folha, Lula (PT) tem destacado os resultados de emprego e renda na campanha, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) chama atenção para o endividamento e o custo de vida.
Ouvido pelo jornal, o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, avalia que emprego e ganhos de qualidade de vida tendem a favorecer a reeleição de governantes. A pressão das dívidas, porém, introduz incerteza nessa leitura do cenário brasileiro.
Fontes e dados consultados
- Folha de S.Paulo — reportagem publicada em 3 de outubro de 2026.
- IBGE, via Agência Gov — PNAD Contínua de junho a agosto de 2026.
- Fecomércio-AC — divulgação dos indicadores nacionais da CNC para agosto de 2026.
- Banco Central — decisão sobre a taxa Selic em setembro de 2026.
- Blog do Ibre — análise sobre o custo do crédito e o orçamento das famílias.