
A cor da pele segue sendo um fator determinante para o risco de morte violenta no Brasil. Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) revelou que pessoas negras têm 49% mais chance de serem assassinadas em comparação com pessoas brancas, mesmo quando possuem as mesmas condições de escolaridade, idade, sexo e local de residência.
A pesquisa foi conduzida pelos médicos Antonio Pazin Filho e Rildo Pinto da Silva, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, e publicada na revista científica Ciência & Saúde Coletiva. O levantamento cruzou dados do Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com registros do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde.
De acordo com os pesquisadores, o estudo foi estruturado para isolar a variável “cor da pele”, eliminando o peso de fatores socioeconômicos tradicionalmente associados à violência. A conclusão é que a cor da pele, por si só, funciona como um fator de risco independente para homicídios no país.
“Criamos grupos estatisticamente iguais, diferentes apenas pela cor da pele, para verificar se o desfecho da morte violenta se alterava. O resultado mostra que negros, pretos e pardos morrem mais por violência do que brancos em função direta da cor da pele”, explicou Rildo Pinto da Silva.
Os números absolutos reforçam a desigualdade. Em 2022, o Brasil registrou 42.441 homicídios. Desse total, 32.540 vítimas — quase 80% — eram pessoas pretas ou pardas. Apenas 8.968 foram identificadas como brancas.
Casos recentes com grande repercussão nacional ajudam a ilustrar o padrão identificado pela pesquisa. Operações policiais letais, mortes provocadas por agentes de segurança e episódios de violência em estabelecimentos comerciais tiveram, em sua maioria, pessoas negras como vítimas. Para os pesquisadores, esses episódios não são exceções, mas parte de um padrão estrutural.
O estudo também chama atenção para o que os autores definem como um processo de normalização da violência contra a população negra. Segundo Silva, reações de indiferença ao resultado da pesquisa revelam uma desumanização do problema. “Quando pessoas dizem que isso é normal ou óbvio, estamos diante de algo muito grave”, afirma.
Especialistas ouvidos pela pesquisa avaliam que o levantamento confirma um diagnóstico histórico. Para o filósofo e teólogo David Santos, a cor da pele opera no Brasil como um marcador social de desproteção. “Pessoas negras são vistas como suspeitas ou descartáveis, tanto em contextos institucionais quanto interpessoais”, afirma.
Os autores defendem que o enfrentamento do problema exige mudanças estruturais, incluindo reformas na segurança pública, controle do uso da força, responsabilização por abusos, políticas de educação antirracista e redução das desigualdades sociais. Para eles, o estudo oferece uma base científica sólida para pressionar por transformações concretas.