Cada vez mais pacientes, no Brasil e no mundo, vêm pedindo cirurgias e tratamentos sem transfusão de sangue. O movimento, que começou chamando atenção por causa das Testemunhas de Jeová, hoje envolve também pessoas sem motivação religiosa, preocupadas com riscos, efeitos colaterais e até com a falta de estoques de sangue nos hospitais.
Transfusão não é isenta de riscos
A transfusão de sangue é um tratamento consagrado, capaz de salvar vidas em casos de trauma grave, hemorragias e cirurgias complexas. Mas a própria literatura médica deixa claro: toda transfusão é uma intervenção com risco, não um procedimento neutro.
Entre os problemas já bem descritos estão as reações alérgicas, febris, sobrecarga circulatória, reações hemolíticas (quando o sangue transfundido é destruído pelo organismo) e a chamada lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão (TRALI), quadro grave de insuficiência respiratória. Além disso, embora os testes tenham ficado muito mais rigorosos, existe risco residual de transmissão de infecções e de complicações imunológicas de longo prazo.

Um estudo de hemovigilância realizado em um hospital universitário de alta complexidade em São Paulo analisou 332.222 transfusões feitas entre 2007 e 2019: foram 1.448 reações imediatas notificadas, o equivalente a 4,4 reações a cada 1.000 transfusões. A maioria foi classificada como leve, mas cerca de 13,5% foram moderadas ou graves. As reações mais comuns foram febris não hemolíticas (57,2%), alérgicas (37,5%) e, em menor proporção, sobrecarga circulatória, reações hemolíticas agudas, TRALI, contaminação bacteriana e hipotensão.
No plano nacional, dados do Sistema Nacional de Hemovigilância indicam que, entre 2018 e 2022, foram notificados cerca de 79,5 mil casos de reações transfusionais no Brasil, com aumento gradual do número de notificações, o que reflete, ao mesmo tempo, maior vigilância e o fato de que eventos adversos não são raros.
Estoques apertados e custo: outro lado do problema
Além dos riscos clínicos, há o fator logístico. O sangue é um recurso escasso: no ano de 2019, por exemplo, o Brasil realizou mais de 2,95 milhões de transfusões, segundo a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH). Números mais recentes não foram localizados.
Relatórios ligados ao SUS mostram que a demanda por sangue cresce enquanto a doação enfrenta períodos de queda, seja por epidemias, férias, festas regionais ou restrições para doadores. Um trabalho da Universidade Federal de Sergipe sobre gestão de sangue do paciente lembra que há dezenas de fatores que impedem a doação (uso de certos medicamentos, doenças crônicas, transfusões prévias, vacinação recente etc.), o que torna o sangue um recurso constantemente pressionado.

Da “medicina sem sangue” ao Patient Blood Management
Na década de 1990, começaram a surgir, de maneira estruturada, os programas de “medicina e cirurgia sem sangue” (“bloodless medicine and surgery”). Muitos deles nasceram da demanda de pacientes Testemunhas de Jeová, que recusam transfusões por convicção religiosa, e acabaram mostrando que é possível realizar cirurgias complexas com pouca ou nenhuma transfusão, se houver planejamento prévio e tecnologias adequadas.
Essa experiência ajudou a consolidar o conceito de Patient Blood Management (PBM), ou gestão do sangue do paciente. Em 2023, a ABHH publicou um consenso nacional sobre PBM, defendendo que, para a maioria dos pacientes, estratégias restritivas de transfusão – isto é, transfundir menos e apenas quando necessário – estão associadas a menos complicações e, em vários estudos, até a menor mortalidade quando comparadas às estratégias “liberais”, em que se transfunde mais.
CASO SUELEN DOS SANTOS: transplante de medula óssea sem transfusão de sangue pago pelo SUS
Uma decisão judicial garantiu que a paciente fosse tratada de acordo com sua fé, usando uma técnica moderna de manejo do próprio sangue.
A paciente Suelen dos Santos Teodoro, de 41 anos, conseguiu algo inédito: realizar um transplante de medula óssea pago pelo Sistema Único de Saúde (SUS) sem precisar receber transfusão de sangue. O procedimento foi feito em um hospital particular de São Paulo, depois de uma decisão da Justiça que garantiu o direito dela de seguir o tratamento de acordo com sua fé.
Suelen tem mieloma múltiplo, um tipo de câncer que afeta a medula óssea e espalha células doentes pelo corpo. Em transplantes comuns, os pacientes recebem sangue de outras pessoas, mas ela não aceitou esse tipo de transfusão.
O juiz entendeu que, já que o SUS não tinha condições de oferecer o tratamento sem transfusão, o governo deveria pagar para que o transplante fosse realizado em um hospital apto a executar o procedimento de forma segura. A decisão se baseou em entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), que garante a pacientes adultos e conscientes o direito de recusar tratamentos que envolvam sangue, desde que existam alternativas médicas seguras.
O transplante foi feito com a técnica Patient Blood Management (PBM), que reúne estratégias para preservar e usar melhor o sangue do próprio paciente, reduzindo ao máximo a necessidade de transfusões.
O processo é dividido em etapas: a medula é coletada enquanto a doença está controlada; o material é tratado e armazenado; em seguida, a paciente recebe quimioterapia forte para eliminar as células doentes; por fim, a medula é devolvida ao organismo, permitindo a recomposição saudável do tecido.
Ao longo de todo o tratamento, a equipe utilizou medicamentos específicos para estimular a produção de células sanguíneas e proteger o organismo de Suelen, evitando o uso de sangue doado por outras pessoas.
O transplante custou R$ 561 mil e foi pago pelo Governo Federal. Suelen recebeu alta no dia 10 de novembro e comemorou:
“A gente tem os nossos direitos. É só correr atrás de informação que a gente consegue”, disse ela.
O PBM reúne medidas que começam no consultório e vão até o pós-operatório: tratar anemia antes da cirurgia, otimizar a coagulação, reduzir a perda de sangue durante o procedimento e, quando possível, reutilizar o próprio sangue do paciente.
Alternativas concretas à transfusão: o que a medicina já oferece
Antes de cirurgias eletivas, é cada vez mais comum investigar e tratar anemia. Estudos sobre gestão de sangue do paciente mostram o uso de ferro IV ou oral, vitamina B12, ácido fólico e estimuladores da eritropoiese.
Essas intervenções elevam a hemoglobina semanas antes do procedimento, reduzindo ou eliminando a necessidade de transfusão.
Estratégias incluem antifibrinolíticos como ácido tranexâmico, correção de distúrbios de coagulação, técnicas menos invasivas e monitorização avançada da coagulação que evita transfusões desnecessárias.
A “recuperação intraoperatória de sangue” (cell saver) coleta o sangue perdido imediatamente durante a cirurgia, filtra e devolve ao paciente. É útil em cirurgias cardíacas, ortopédicas e de grande porte.
No Ceará, o Hospital Regional do Seridó implantou equipamento que permite reaproveitar o próprio sangue do paciente, reduzindo dependência de hemocomponentes.
Outro método é a hemodiluição normovolêmica aguda: retira-se sangue no início da cirurgia e substitui-se por soro; depois reinfunde-se o sangue original do paciente.
Cirurgias com menor incisão e tempo reduzido diminuem perdas sanguíneas. Paralelamente, estudos mostraram que níveis mais baixos de hemoglobina podem ser seguros para muitos pacientes, se acompanhados cuidadosamente.
Ensaios clínicos comparam estratégias restritivas e liberais de transfusão e mostram igual ou melhor sobrevida para pacientes que receberam menos sangue.
Em muitos cenários, a pergunta deixou de ser “quando transfundir?” para “como evitar chegar ao ponto de precisar transfundir?”.
Casos reais e a experiência de centros especializados

No exterior, hospitais como o Johns Hopkins Hospital, nos Estados Unidos, mantêm há anos centros dedicados à medicina sem transfusão. Avaliações do programa de “bloodless medicine” mostram que pacientes atendidos nesses serviços, incluindo Testemunhas de Jeová e outros que recusam transfusões, podem ter taxas de complicações e mortalidade iguais ou até menores quando comparados a pacientes semelhantes tratados em programas convencionais, muitas vezes com redução de custos hospitalares.
No Brasil, há séries de casos de cirurgias cardíacas, ortopédicas e oncológicas em pacientes que recusam transfusão, mostrando que, com protocolos específicos, é possível realizar procedimentos de alto risco sem uso de sangue alogênico. Uma revisão brasileira sobre gestão medicamentosa em pacientes que trataram anemia perioperatória sem sangue descreve pacientes que foram operados com hemoglobina corrigida previamente e uso intensivo de ferro, eritropoetina e agentes hemostáticos, com recuperação considerada satisfatória pela equipe.
HRSC reutiliza sangue da própria paciente em cirurgia e respeita crença religiosa
Caso de Maria Zeneide, de 75 anos, mostra como tecnologia e gestão do sangue do paciente são usadas para conciliar segurança clínica e liberdade de consciência no interior do Ceará.
Uma paciente de 75 anos passou por um procedimento cirúrgico em janeiro de 2024 no Hospital Regional do Sertão Central (HRSC), em Quixeramobim (CE), com o uso de uma máquina que reutiliza o sangue durante o procedimento. A iniciativa ocorreu através de uma parceria com o Centro de Hemoterapia do Ceará (Hemoce).
Maria Zeneide Vitoriano, moradora de Senador Pompeu, fraturou o quadril após uma queda e precisou fazer uma artroplastia, que é a substituição de uma articulação do corpo por uma prótese. Na triagem, a paciente informou ser Testemunha de Jeová, cuja crença religiosa tem restrições sobre transfusões sanguíneas.
Como não dispõe de um equipamento específico para utilizar sangue autólogo, ou seja, o sangue da própria paciente, o HRSC solicitou uma máquina ao Hemoce para garantir que o desejo dela fosse atendido. O procedimento assegura o respeito às crenças dos pacientes.
O procedimento ocorreu numa quarta-feira e, apenas um dia depois, ela já foi para casa.
Pela função que desempenha, a máquina leva o nome de Recuperação Intraoperatória de Sangue (RIOS/Cell Saver). “Essa máquina aspira o sangue durante o procedimento, faz a filtragem de impurezas, processa e devolve o sangue autólogo ao corpo, se necessário”, explica Tiago Inácio, membro da Agência Transfusional do HRSC.
O processo é semelhante a uma transfusão, mas o sangue utilizado é o da própria paciente, e não o de uma bolsa doada por outra pessoa, como explica Claudianne Maia, coordenadora do setor RIOS do Hemoce: “O sangue é aspirado para um reservatório onde ocorre a separação das hemácias, e em seguida é colocado em uma bolsa para reinfusão”.
Cirurgia ortopédica complexa é realizada sem transfusão sanguínea em Fortaleza
Em abril de 2022 foi realizada no hospital Otoclínica de Fortaleza (CE), uma complexa cirurgia ortopédica sem o uso de transfusão de sangue. O paciente, de 14 anos de idade, residente na região de Crateús (CE), era portador de escoliose dupla-curva de alto valor angular (coluna em “S”). A cirurgia de correção do desvio na coluna em geral envolve significativa perda de sangue e pode durar de 4 a 6 horas.
Os pais do paciente são Testemunhas de Jeová e solicitaram à equipe do hospital para não usar na cirurgia transfusão de sangue alogênico (sangue de outra pessoa). A equipe tinha condições técnicas para isso e aceitou utilizar estratégias cirúrgicas que atendessem à posição bíblica da família.
Como exemplo de uma das estratégias já mencionadas, o cirurgião, Dr. Francisco Valmir Fernandes, a anestesiologista, Dra. Vladia Freitas de Oliveira, bem como o restante da equipe, utilizaram uma máquina de recuperação intraoperatória de células (RIOS/Cell-Saver) durante a cirurgia. Essa máquina tem a função de aspirar o sangue que sai da cavidade cirúrgica e, após filtragem, o reinfunde no próprio paciente.
A cirurgia durou 4 horas e foram recuperados cerca de 400 ml de concentrado de hemácias. O resultado foi muito positivo, pois conciliou um procedimento cirúrgico complexo e, ao mesmo tempo, o respeito ao direito constitucional de liberdade de consciência e crença da família.
Destaca-se, assim, o valor de uma boa comunicação e da plena colaboração entre equipes médicas e pacientes, o que permite assegurar um tratamento médico de qualidade que valoriza a dignidade da pessoa humana.
HRSC reutiliza sangue da própria paciente em cirurgia no fêmur e reduz necessidade de transfusão
Em abril de 2019, a aposentada Núbia de Aguiar da Silva, 70 anos, recebeu alta do Hospital Regional do Sertão Central (HRSC), localizado em Quixeramobim, apenas um dia depois de ter passado por uma cirurgia complexa. Ela foi a primeira paciente a passar por um procedimento tão invasivo com a reutilização do próprio sangue no HRSC.
Dona Núbia passou por uma cirurgia no fêmur. No procedimento, não foi realizada nenhuma transfusão sanguínea heteróloga, quando o hemocomponente é proveniente da doação de outro indivíduo. O processo de reaproveitamento do sangue foi feito com um equipamento do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce), que proporciona esse tipo de reuso do sangue em cirurgias.
“Essa primeira situação aconteceu não porque a cirurgia requeresse esse tipo de aparato, mas pela condição da paciente. Tendo em vista essa atenção centrada no usuário, nós resolvemos junto aos familiares essa ponte com o Hemoce, que nos ajudou em relação à logística, nos fornecendo um funcionário e o equipamento para que o procedimento acontecesse da melhor forma possível”, ressalta o coordenador do Centro Cirúrgico Geral do HRSC, Daniel Rodrigues.
A diretora geral do Hemoce, Luciana Carlos, ressalta que a máquina é utilizada em casos de cirurgia de grande porte e de urgência. “Com a máquina de recuperação intraoperatória é possível reduzir a necessidade de transfusão de sangue, pois o equipamento retira o sangue que seria perdido e recupera para ser novamente transfundido no paciente. Isto é importante tanto para pessoas que têm alguma incompatibilidade sanguínea ou para aquelas que por outro motivo se recusem a receber transfusão de sangue”, explica a hematologista.
A utilização do aparelho se deu por causa das convicções religiosas da paciente, que é Testemunha de Jeová e, como tal, busca tratamentos médicos que não utilizem qualquer tipo de transfusão. “Apesar de ser um meio novo para o hospital, toda a equipe abraçou a ideia e respeitou a decisão da minha mãe. Saber que no HRSC tem médicos cooperadores que abraçam essa causa, é muito gratificante”, afirma a filha da paciente, Monique Aguiar.
Uma das grandes vantagens dos tratamentos realizados com métodos alternativos às transfusões é a velocidade de recuperação dos pacientes, que quase sempre recebem alta mais cedo do que aqueles que utilizam sangue.
O Centro de Traumatologia e Ortopedia (CTO) do HRSC foi inaugurado no dia 26 de outubro de 2018.
É importante registrar que nem todos os casos têm desfecho favorável e que o risco aumenta quando a hemoglobina cai a níveis muito baixos em pacientes com doenças cardíacas ou múltiplas comorbidades. A própria literatura de programas sem sangue relata casos em que, apesar de todos os esforços, a combinação de sangramento maciço e limitações clínicas resultou em óbito, mas são casos que, em geral, nem mesmo a transfusão seria capaz de resolver positivamente.
Ainda assim, o conjunto de estudos ajudou a mostrar que, longe de ser uma exigência “impossível”, tratar pacientes sem transfusão é, em muitos cenários, tecnicamente viável e, quando bem planejado, seguro e recomendável.
Por que mais pessoas estão pedindo procedimentos sem transfusão
O aumento da preferência por tratamentos sem transfusão não se explica por um único motivo. Vários fatores convergem:
- Autonomia e informação – Pacientes hoje chegam ao consultório com acesso a artigos, decisões judiciais e experiências de outros doentes. Querem participar da decisão, questionam indicações de transfusão e pedem alternativas quando entendem que os riscos não compensam os benefícios em determinado contexto.
- Motivações religiosas e de consciência – Para Testemunhas de Jeová, a recusa a transfusões é um ponto central de fé. Mas há também pessoas que, mesmo sem pertencer a essa religião, se sentem desconfortáveis com a ideia de receber sangue de outra pessoa ou temem infecções e reações.
- Evidências científicas mais sólidas – Diretrizes baseadas em medicina de evidência reforçam a preferência por estratégias transfusionais restritivas e pelo PBM. Quando o próprio consenso da ABHH sugere que, para muitos pacientes, transfundir menos pode significar menos complicações, a ideia de evitar transfusões desnecessárias ganha legitimidade dentro da medicina tradicional.
- Pressão sobre estoques de sangue – Em sistemas públicos como o SUS, cada bolsa deve ser usada com máximo critério. Programas de gestão do sangue do paciente são vistos também como política de racionalização de recursos.
O que o STF decidiu sobre a recusa de transfusão e o dever do SUS

Em setembro de 2024, o Supremo Tribunal Federal julgou dois recursos com repercussão geral envolvendo pacientes Testemunhas de Jeová que buscavam cirurgias sem transfusão via Sistema Único de Saúde. Por unanimidade, a Corte fixou teses de grande impacto para todo o país.
Os ministros decidiram que:
- Testemunhas de Jeová, quando maiores e capazes, têm o direito de recusar procedimentos médicos que envolvam transfusão de sangue, com base na autonomia individual e na liberdade religiosa.
- Pacientes no pleno gozo da capacidade civil podem recusar tratamentos de saúde por motivos religiosos, desde que essa recusa seja livre, consciente, informada e expressa, inclusive por meio de diretivas antecipadas de vontade.
E foram além: o STF também reconheceu que essas pessoas têm direito a procedimentos alternativos já disponíveis no SUS, inclusive com possibilidade de Tratamento Fora de Domicílio (TFD) quando o serviço de referência não existir na cidade do paciente. A tese aprovada registra que, “em respeito ao direito à vida e à saúde, fazem jus aos procedimentos alternativos disponíveis no Sistema Único de Saúde – SUS, podendo, se necessário, recorrer a tratamento fora de seu domicílio”.
Na prática, isso significa que:
- O SUS não pode simplesmente impor uma transfusão a um adulto capaz que a recusa por motivos religiosos.
- Sempre que houver alternativa técnica segura e disponível, o sistema público deve buscá-la, inclusive encaminhando o paciente para outro estado se for ali que exista a expertise necessária para realizar o procedimento sem transfusão.
O STF, porém, também deixou claro que essa autonomia não é absoluta em relação a terceiros. Para filhos menores, por exemplo, os pais não podem vetar um tratamento necessário se não houver alternativa eficaz: a prioridade, nesses casos, é a proteção da vida da criança.
Posição do Conselho Federal de Medicina
Em 2025, o Conselho Federal de Medicina (CFM) emitiu parecer reafirmando que o direito à recusa terapêutica, inclusive de transfusões, deve ser respeitado em pacientes maiores, capazes e adequadamente informados. O documento lembra que forçar um tratamento contra a vontade do paciente pode, em certas situações, caracterizar violação ética e até crime, enquanto acolher a recusa informada não constitui omissão de socorro.
O parecer cita decisões anteriores do próprio CFM em que médicos foram absolvidos por respeitar a recusa de transfusão de Testemunhas de Jeová, e reproduz trechos das teses fixadas pelo STF no Tema 1069, consolidando o entendimento de que autonomia e liberdade de consciência são pilares da prática médica contemporânea.
O que muda para o paciente comum
Na prática, o movimento em direção a tratamentos sem transfusão não beneficia apenas grupos religiosos. Ele força o sistema de saúde a: (1) Usar o sangue de maneira mais responsável; (2) Investir em protocolos e tecnologias que reduzem o sangramento; e (3) Discutir com o paciente, de forma transparente, riscos e opções disponíveis.
Para o paciente que deseja evitar transfusões, a mensagem central dos especialistas e das cortes superiores é dupla:
- O direito de recusar existe – Para adultos capazes, informados e que manifestam a vontade de forma clara, o ordenamento jurídico brasileiro reconhece o direito de dizer “não” à transfusão e de buscar alternativas via SUS, quando técnica e cientificamente viáveis.
- A decisão precisa ser responsável e dialogada – A recusa à transfusão não elimina o risco, apenas o desloca. Planejamento prévio, tratamento da anemia, escolha do hospital adequado e acordo claro com a equipe médica são fundamentais para que o respeito à consciência ande junto com a melhor prática clínica disponível.
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1. Hemovigilância e riscos transfusionais
- BRASIL. ANVISA. Sistema Nacional de Hemovigilância (Notivisa): Relatório de reações transfusionais 2018–2022. Brasília, 2023.
- SOUZA, M. H. et al. Reações transfusionais imediatas em hospital universitário de alta complexidade: análise de 332.222 transfusões (2007–2019). Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, 2021.
2. Estatísticas nacionais de transfusão
- ABHH. Relatório Nacional de Produção de Hemoterapia: Brasil 2019. São Paulo, 2020.
3. Diretrizes e literatura sobre Patient Blood Management (PBM)
- ABHH. Consenso Brasileiro de Gestão do Sangue do Paciente (PBM). São Paulo, 2023.
- JOHNSON, D.; FREMONT, B. Advances in patient blood management. Journal of Clinical Medicine, 2021.
- MORAES, R.; BARRETO, E. Tratamento medicamentoso da anemia perioperatória. Revista Brasileira de Anestesiologia, 2020.
- UFS. Gestão racional de estoques de sangue no Brasil. Aracaju, 2022.
4. Programas de cirurgia sem transfusão e casos reais
- JOHNS HOPKINS HOSPITAL. Bloodless Medicine and Surgery Program: Clinical Outcomes Report. 2020.
- SILVA, L. P. et al. Resultados de cirurgias cardíacas e ortopédicas em pacientes que recusam transfusão. Arquivos Brasileiros de Cirurgia, 2022.
- HOSPITAL REGIONAL DO SERIDÓ. Implantação do sistema de recuperação intraoperatória de sangue. Caicó–RN, 2023.
5. Decisões judiciais e normativas
- STF – RE 1.387.993/PR, Tema 1069. Rel. Min. Barroso, 2024.
- STF – RE 1.362.443/DF – Cirurgia sem transfusão pelo SUS, 2024.
- CFM. Parecer nº 07/2025: recusa terapêutica e autonomia do paciente, 2025.
6. Ética médica e autonomia do paciente
- BEAUCHAMP & CHILDRESS. Principles of Biomedical Ethics. Oxford, 2019.
- SOUZA, C. A.; LIMA, E. A autonomia do paciente na recusa de tratamentos. Revista Bioética, 2021.
7. Produção científica adicional
- FERREIRA, J.; ANDRADE, M. Atualização em TRALI e reações hemolíticas. Hematology Advances, 2020.
- KLEIN, H. G.; ANSTRONG, B. Modern transfusion therapy: risks and restrictive strategies. NEJM, 2019.