O youtuber Felca levou o Brasil inteiro, nesta semana, a considerar com seriedade a adultização de crianças e adolescentes como fonte de abastecimento para predadores sexuais e pedófilos em geral. O perigo é real.

O abuso sexual infantil é um crime que deixa marcas permanentes nas vítimas e exige vigilância constante da sociedade. No entanto, em diversos contextos — de clubes esportivos a instituições religiosas — há registros de pessoas com histórico de abuso tentando retomar posições de influência ou proximidade com crianças, explorando brechas na memória coletiva, na confiança e na falta de comunicação sobre crimes passados.

A preocupação é reforçada por dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: no recente ano de 2023, mais de 70% dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes foram cometidos por alguém próximo, muitas vezes com acesso facilitado pela confiança de familiares ou da comunidade. (Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024).

A “tática da reconquista”

Psicólogos forenses explicam que predadores sexuais frequentemente utilizam estratégias para reconquistar credibilidade, como se envolver em trabalhos voluntários, oferecer ajuda em eventos sociais ou demonstrar religiosidade intensa. A aparência de arrependimento ou “nova vida” pode reduzir a desconfiança, principalmente em comunidades que prezam pelo perdão e pela reintegração social.

O advogado criminalista e especialista em proteção infantil, Paulo Esteves, ressalta:

“Perdão espiritual não significa esquecimento jurídico. Pessoas condenadas por crimes sexuais contra menores não devem, em hipótese alguma, ter acesso irrestrito a espaços onde haja contato direto com crianças.”

Pedófilos e abusadores costumam se aproximar de locais onde crianças estão presentes de forma contínua — como atividades esportivas, grupos religiosos, aulas de música ou programas sociais. A Associação Americana de Psicologia (APA) aponta que, mesmo após condenações, parte dos abusadores tenta voltar a posições de influência para criar oportunidades de aproximação com menores.

No Brasil, especialistas como a psicóloga forense Ilana Casoy alertam que o “acesso” é um dos principais fatores de risco. “Onde há vulnerabilidade e ausência de vigilância, há espaço para predadores sexuais se inserirem novamente”, afirma.

Ambientes vulneráveis

Organizações como clubes, associações e igrejas, pela natureza de suas atividades, oferecem interação constante entre adultos e crianças. Quando não há protocolos claros de prevenção e fiscalização, esses espaços se tornam vulneráveis a predadores que agem com paciência e discrição até conquistar acesso irrestrito.

A psicóloga clínica Maria Fernanda Lopes afirma que “o abusador raramente age de forma abrupta. Ele constrói relações de confiança com a comunidade e, sobretudo, com a criança, num processo chamado grooming, que pode durar meses ou anos”.

O que pais e mães podem fazer para proteger seus filhos

  1. Mantenha diálogo aberto e contínuo – Converse regularmente com a criança sobre quem ela encontra, o que faz e como se sente nos ambientes que frequenta.
  2. Ensine limites corporais – Desde cedo, explique que o corpo da criança é dela e ninguém deve tocar sem permissão, mesmo que seja um conhecido ou figura de autoridade.
  3. Acompanhe atividades – Sempre que possível, participe ou faça visitas surpresa em aulas, reuniões ou ensaios.
  4. Conheça o histórico de quem cuida ou orienta – Peça informações sobre antecedentes criminais e histórico de atuação de voluntários, professores, líderes religiosos ou treinadores.
  5. Observe mudanças de comportamento – Sinais como medo de frequentar determinado local, alterações bruscas de humor ou regressão comportamental podem indicar problemas.
  6. Exija protocolos claros – Clubes, escolas e igrejas devem ter regras que impeçam pessoas com histórico de crimes sexuais de exercer funções com contato direto com menores.
  7. Denuncie qualquer suspeita – Utilize o Disque 100 ou procure diretamente o Conselho Tutelar e a polícia.

Essas orientações também estão alinhadas às recomendações do Disque 100 – Disque Direitos Humanos, canal oficial do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. O serviço funciona 24 horas e aceita denúncias anônimas. (Fonte: Disque 100 – MDHC).

A responsabilidade coletiva

Proteger crianças é dever legal e moral de toda a comunidade. A omissão diante de riscos conhecidos não apenas favorece novos abusos, mas também revitimiza sobreviventes, que percebem que seu sofrimento foi ignorado.

Para organizações religiosas, esportivas e culturais, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda programas permanentes de treinamento e conscientização sobre abuso infantil para todos os colaboradores e voluntários, com ênfase na identificação precoce de sinais e no cumprimento imediato da obrigação legal de denunciar. (Fonte: SBP – Manual de Prevenção de Violência contra Crianças e Adolescentes).

Além disso, a Lei nº 13.431/2017 estabelece protocolos para atendimento e proteção de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência, obrigando qualquer pessoa a comunicar às autoridades suspeitas de abuso. (Fonte: Lei 13.431/2017 – Presidência da República).

Organizações sérias já adotam políticas de tolerância zero, nas quais qualquer pessoa com histórico de abuso é permanentemente afastada de atividades que envolvam menores. Essa postura, defendem especialistas, deve ser a regra — não a exceção.

“Não se trata de perseguição, mas de prevenção. Uma criança protegida hoje é um adulto com menos traumas amanhã”, reforça Maria Fernanda Lopes.

O alerta é claro: perdão e segunda chance não podem se sobrepor ao direito das crianças de viverem seguras. Ambientes religiosos ou comunitários devem ser espaços de proteção, não de vulnerabilidade.

A prevenção eficaz começa com informação, diálogo e protocolos firmes. O silêncio e a ingenuidade são, historicamente, aliados dos abusadores. A vigilância permanente, por outro lado, é aliada da infância.