
O Governo Federal iniciou estudos para criar um sistema nacional de navegação por satélite, semelhante ao GPS norte-americano, com o objetivo de reduzir a dependência tecnológica do Brasil em áreas estratégicas como defesa, logística e agricultura de precisão. A medida foi aprovada pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e envolve uma força-tarefa interministerial.
O grupo de trabalho é coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e conta com representantes de quatro ministérios — Ciência e Tecnologia; Defesa; Comunicações; e Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — além de nove instituições técnicas, incluindo a Agência Espacial Brasileira (AEB), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Comando da Aeronáutica e a Anatel.
O objetivo do grupo é elaborar um diagnóstico técnico, econômico e estratégico sobre a criação de um sistema nacional de Posicionamento, Navegação e Tempo (PNT). O prazo inicial para conclusão do estudo é de 180 dias, prorrogável por igual período.
Risco geopolítico e motivação estratégica
A proposta surge em meio ao acirramento das tensões diplomáticas com os Estados Unidos, após o anúncio de novas tarifas sobre produtos brasileiros pelo governo Donald Trump e especulações sobre um possível bloqueio do sinal GPS em território nacional. Embora essa hipótese seja considerada improvável por especialistas, o episódio acendeu alertas sobre a vulnerabilidade da infraestrutura nacional diante de decisões unilaterais de potências estrangeiras.
A depender da viabilidade, o sistema brasileiro não seria global como o GPS norte-americano, o Glonass russo ou o BeiDou chinês, mas teria foco regional, com prioridade de cobertura no território brasileiro e eventualmente em outros países da América do Sul. Essa abordagem visa reduzir custos e assegurar soberania tecnológica, especialmente em setores sensíveis como telecomunicações, aviação civil e defesa.
Modelo inspirado em sistemas internacionais

O Brasil pretende seguir exemplos de sucesso como o Galileo, da União Europeia, que opera com independência dos sistemas militares dos EUA e da Rússia. A ideia é aproveitar a atual capacidade da indústria nacional, utilizar satélites já em órbita e desenvolver novos equipamentos dedicados.
Além da cobertura regional, o sistema brasileiro poderá operar de forma integrada com outras constelações globais, garantindo interoperabilidade e continuidade de serviços. Entre os desafios técnicos estão o desenvolvimento de satélites e receptores compatíveis, além da implantação de estações de controle e infraestrutura de recepção no solo.
Parcerias e desenvolvimento tecnológico
O grupo também deverá avaliar possíveis parcerias internacionais para cooperação em tecnologia espacial, inclusive com países que já operam sistemas PNT. O governo considera que o projeto pode impulsionar a indústria aeroespacial brasileira e gerar inovação em áreas como geolocalização, internet das coisas e mobilidade urbana.
Ao final dos estudos, um relatório será entregue ao Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro, vinculado ao GSI, com recomendações sobre os próximos passos para a implementação do projeto.