O Ministério da Saúde passou a disponibilizar, a partir desta sexta-feira (15), um novo exame para rastreamento do câncer de colo do útero na rede pública: o teste de biologia molecular DNA-HPV. A tecnologia, 100% nacional, foi desenvolvida pelo Instituto de Biologia Molecular do Paraná, vinculado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e detecta 14 tipos do papilomavírus humano (HPV), principal causador da doença.
Avanço na prevenção
O novo método é capaz de identificar a presença do vírus antes mesmo do surgimento de lesões precursoras ou de tumores em estágio inicial, incluindo mulheres que não apresentam sintomas. Segundo o Ministério da Saúde, isso possibilita intervenções precoces e mais eficazes.

“Por ser mais sensível, o teste permite ampliar o intervalo entre os exames para até cinco anos, o que evita procedimentos desnecessários e reduz custos para o sistema”, informou a pasta.
A ministra da Saúde, Nísia Trindade, afirmou que a incorporação do teste representa “um marco histórico para a saúde da mulher no Brasil” e destacou que a estratégia segue as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para eliminar o câncer do colo do útero como problema de saúde pública até 2030.
Como funciona
O procedimento de coleta é semelhante ao papanicolau tradicional: a secreção é retirada do colo do útero durante exame ginecológico. A diferença está no processamento: em vez de ser colocada em lâmina para análise citológica, a amostra é depositada em um tubo com líquido conservante, que é enviado ao laboratório para pesquisa do DNA do HPV.
Quando o resultado for negativo, a paciente só precisará repetir o exame após cinco anos. Em caso positivo, o papanicolau será utilizado para confirmar a presença de alterações nas células, podendo levar à indicação de exames complementares, como colposcopia e biópsia.
Implementação gradual
A implantação será feita por etapas. Inicialmente, o exame estará disponível em 12 estados — Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Bahia, Pará, Rondônia, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco — e no Distrito Federal.
Cada local terá um município como projeto-piloto, escolhido por já contar com rede estruturada para realizar exames confirmatórios e oferecer tratamento. A meta é que, até dezembro de 2026, o teste esteja presente em todo o território nacional, atendendo cerca de 7 milhões de mulheres de 25 a 64 anos anualmente.
Para a médica epidemiologista da Fiocruz, Ana Carolina Horta, o avanço é estratégico: “Estamos falando de um exame de alta performance que possibilita o rastreamento equitativo, inclusive em regiões remotas, ajudando a reduzir desigualdades no acesso à prevenção.”
Impacto no combate à doença
O câncer de colo do útero é o terceiro tipo mais frequente entre mulheres no Brasil, com cerca de 17 mil novos casos por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). É também a principal causa de morte por câncer ginecológico no país, com aproximadamente 20 óbitos diários, número que chega a ser até seis vezes maior que os casos de feminicídio em alguns estados.
Dados do Inca indicam que no Nordeste, especialmente em áreas com baixa cobertura de rastreamento, o índice de mortalidade é ainda mais elevado. Para o ministério, a adoção do DNA-HPV é uma das principais ferramentas para mudar esse cenário.
HPV e prevenção
O HPV é transmitido principalmente por via sexual e, na maioria dos casos, é eliminado naturalmente pelo organismo. No entanto, infecções persistentes por tipos de alto risco podem levar ao desenvolvimento do câncer de colo do útero.
A vacinação contra o HPV, disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos, é apontada por especialistas como a forma mais eficaz de prevenção, aliada ao rastreamento regular.