
Um sérum para cílios e sobrancelhas da marca Wepink, pertencente à influenciadora digital Virgínia Fonseca, está no centro de uma série de denúncias de queimaduras oculares graves. Diversas consumidoras relataram reações adversas após o uso do produto Wedrop, com casos que incluem dor intensa, inflamação, cegueira temporária e até risco de lesões permanentes.
Entre os relatos está o da cabeleireira Lidiane Herculano, de 45 anos, que afirma ter passado quatro dias sem conseguir abrir os olhos devido à dor. “Parecia gilete cortando os meus olhos. Eu precisava forçar os olhos para soltar a água acumulada, porque não conseguia abri-los”, relatou ao g1. A consumidora descreveu a maior sequela como emocional: “fiquei com medo de não voltar a enxergar”.
Segundo Lidiane, o produto foi aplicado nos cílios antes de dormir, no dia 13 de junho. Ela alega que o site da marca não alertava contra o uso noturno. Durante a madrugada, acordou com a visão embaçada e sensação de ardência extrema. No dia seguinte, após tentativa de lavar os olhos com soro fisiológico, recebeu o diagnóstico de queimadura na córnea por dois oftalmologistas diferentes. Além de colírios antibióticos e lubrificantes, ela precisou de atendimento de urgência para anestesiar os olhos e conseguir abri-los.

Casos similares vêm se acumulando desde 2023
No site Reclame Aqui, ao menos dez consumidores relataram efeitos adversos parecidos. “Parecia que tinha um ferro dentro dos meus olhos”, escreveu uma usuária. Outro registro, de 2024, descreve inflamação no olho direito após o uso do Wedrop.
Apesar das denúncias, até a publicação da reportagem a empresa Wepink não havia se manifestado oficialmente. Segundo Lidiane, advogados da marca fizeram contato, mas sem fornecer explicações sobre os efeitos adversos.
Especialistas apontam riscos e falhas na formulação e testes
O oftalmologista Newton Kara José Junior, do Hospital Sírio-Libanês, destacou que o Wedrop é classificado pela Anvisa como cosmético — o que significa que não é submetido a estudos clínicos rigorosos sobre segurança ou eficácia, como os medicamentos. Ele também alertou que o rótulo menciona apenas testes dermatológicos, sem qualquer referência a avaliações oftalmológicas, o que é grave para um produto que pode entrar em contato com os olhos.
O perito químico e professor do Senai, André Luiz Carneiro Simões, analisou a fórmula do sérum e apontou substâncias com potencial irritante, como Imidazolidinyl Urea, Triethanolamine e PPG-5-Ceteth-20. Esses componentes podem causar reações adversas dependendo da concentração e da sensibilidade individual.
Já o oftalmologista Sergio Felberg, do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, alertou que as lesões provocadas por produtos como o Wedrop podem ser irreversíveis. “Algumas reações podem ser suficientemente tóxicas para causar danos permanentes à visão”, declarou. O diretor da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, Cesar Motta, reforçou que nenhum produto deve ser aplicado na região ocular sem orientação médica.
O que fazer em caso de reação ocular?
Profissionais de saúde orientam que, em caso de ardência, vermelhidão ou desconforto após o uso de cosméticos, os olhos devem ser lavados imediatamente com água filtrada ou soro fisiológico. Em seguida, é fundamental buscar atendimento médico urgente, uma vez que o tempo de exposição pode agravar o quadro clínico.
O caso reacende o debate sobre a regulamentação de cosméticos de uso próximo aos olhos, sobretudo em um mercado aquecido por celebridades e influenciadores digitais, onde nem sempre há garantias técnicas sobre a segurança dos produtos.