
A Igreja Ortodoxa Russa enviou a tropas que combatem na Ucrânia um fragmento ósseo atribuído à mão direita de Dmitri Donskoi, príncipe medieval canonizado pela instituição. A relíquia foi apresentada em uma área da região ucraniana de Donetsk ocupada pela Rússia, segundo informações divulgadas nesta quinta-feira (10).
Protegido por uma urna com vidro reforçado, o fragmento foi levado inicialmente ao complexo memorial de Saur-Mogila, onde ocorreu uma cerimônia religiosa com a presença de representantes da Igreja, autoridades instaladas por Moscou e integrantes das forças russas.
O Patriarcado de Moscou informou que a iniciativa busca oferecer apoio espiritual aos combatentes. A mão direita possui valor simbólico porque, segundo a tradição associada ao príncipe, teria empunhado a espada durante a Batalha de Kulikovo, em 1380.
A relíquia deverá percorrer diferentes unidades militares posicionadas na linha de frente. O envio ocorre enquanto a Igreja Ortodoxa Russa amplia o uso de símbolos religiosos e históricos em apoio à campanha militar conduzida pelo Kremlin na Ucrânia.
Quem foi Dmitri Donskoi
Dmitri Donskoi viveu entre 1350 e 1389 e foi grão-príncipe de Moscou. Ele se tornou uma das figuras mais conhecidas da história russa depois de comandar forças que derrotaram a Horda Dourada na Batalha de Kulikovo.
O confronto de 1380 não encerrou o domínio mongol sobre os principados russos, mas passou a ser tratado posteriormente como um marco político e simbólico da afirmação de Moscou. A imagem de Donskoi foi incorporada ao nacionalismo russo e associada à resistência militar do país.
Durante o período soviético, mesmo com o Estado oficialmente ateu e a repressão imposta a instituições religiosas, o nome do príncipe foi utilizado por uma unidade militar na Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, também batizou um submarino nuclear.
A Igreja Ortodoxa Russa canonizou Donskoi em 1988, durante as celebrações dos mil anos da cristianização da antiga Rus de Kiev.
Restos mortais foram encontrados no Kremlin
Os restos atribuídos ao príncipe foram encontrados neste ano durante trabalhos de restauração na Catedral do Arcanjo, localizada dentro do Kremlin, em Moscou.
A Igreja Ortodoxa informou que análises antropológicas e forenses confirmaram a identificação da ossada. Não foram divulgados, porém, documentos técnicos que permitam uma verificação independente das conclusões apresentadas pela instituição.
O presidente Vladimir Putin visitou o local em agosto e esteve diante da urna funerária. Na ocasião, classificou a descoberta como relevante para a preservação das bases históricas e culturais da Rússia.
Antes de ser transportado para Donetsk, o sarcófago também foi apresentado em uma procissão religiosa realizada em Moscou.
Igreja mantém alinhamento com o Kremlin
A iniciativa reforça a proximidade entre o governo de Vladimir Putin e a Igreja Ortodoxa Russa, liderada pelo patriarca Cirilo. Desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, a cúpula da instituição tem apoiado publicamente as forças russas e apresentado o conflito por meio de argumentos religiosos e históricos.
O Patriarcado de Moscou sustenta que mantém independência em relação ao governo. Ao mesmo tempo, dirigentes da Igreja participam de cerimônias militares, enviam religiosos às áreas de combate e promovem orações em favor das tropas.
Críticos do Kremlin consideram que essas iniciativas transformam símbolos religiosos em instrumentos de mobilização política e militar. A Igreja, por sua vez, afirma que sua atuação tem o objetivo de prestar assistência espiritual aos soldados.
O uso da imagem de Donskoi também se encaixa na narrativa adotada por Putin para relacionar a Rússia contemporânea a episódios considerados fundadores da identidade nacional. O príncipe medieval é apresentado como exemplo de resistência diante de ameaças externas, embora a realidade política e territorial do século 14 seja distinta do atual conflito com a Ucrânia.
A região de Donetsk permanece como um dos principais focos dos combates. Moscou reivindica a anexação de todo o território, mas a medida não é reconhecida pela Ucrânia nem pela maior parte da comunidade internacional.