Pesquisa e edição Gooldemberg Saraiva
Gravado em pedra, preservado em manuscritos e iluminado em vitrais, o tetragrama atravessou mudanças de idioma e de costumes. Sua trajetória ajuda a explicar por que o leitor encontra Javé, Jeová ou Senhor nas Bíblias.
No vidro, quatro letras se destacam entre cores e arabescos. Em uma pedra antiga, surgem no relato de uma vitória militar. Nas páginas de uma Bíblia, podem aparecer como um nome — ou dar lugar à palavra Senhor. Esses caminhos se cruzam na história de uma das expressões mais estudadas da tradição bíblica: YHWH.
Em hebraico, o nome é escrito יהוה. A sequência reúne quatro letras, convencionalmente representadas como YHWH ou YHVH no alfabeto latino. Daí a palavra tetragrama: uma referência aos quatro caracteres que identificam o Deus de Israel nos textos hebraicos.
YHWH · yod, he, waw, he
O hebraico é lido da direita para a esquerda.
Antes dos livros impressos, a pedra
Um dos registros mais antigos fora da Bíblia está na Estela de Mesa, monumento do século IX a.C. preservado no Louvre, em Paris. Feita de basalto e encontrada em 1868, em território da atual Jordânia, a inscrição narra conquistas do rei de Moabe contra Israel.
O nome do Deus israelita aparece nesse relato escrito do ponto de vista de um adversário. A importância histórica do objeto está justamente aí: as quatro letras também circulavam fora dos textos que seriam transmitidos como Escritura.
Uma escrita que não registra todo o som
O hebraico antigo não empregava os sinais de vogais que seriam acrescentados aos manuscritos séculos depois. As letras do nome foram preservadas; reconstruir sua pronúncia exige comparar testemunhos linguísticos e históricos.
Yahweh, frequentemente adaptado ao português como Javé, é uma reconstrução amplamente adotada nos estudos bíblicos. Isso não equivale a possuir um registro sonoro da Antiguidade: a história da pronúncia envolve evidências indiretas e discussão especializada.
Paralelamente, consolidou-se na tradição judaica o costume supersticioso de evitar a pronúncia do nome. Na leitura, empregava-se Adonai, “Senhor”; em outros contextos, HaShem, “o Nome”. O que estava escrito e o que era dito podiam, portanto, ser diferentes.
Quando o hebraico encontrou o grego
A circulação das Escrituras em grego acrescentou outra camada à história. Alguns manuscritos antigos conservaram o nome em caracteres hebraicos dentro do texto grego. O Papiro Fouad 266b, de Deuteronômio, datado do século I a.C., é um exemplo documentado pelo pesquisador Larry Hurtado.
Outros testemunhos apresentam soluções diferentes, como Iao. Na transmissão cristã dos textos gregos, tornou-se corrente Kyrios, “Senhor”. A tradição latina empregou Dominus. Essa variedade impede resumir séculos de cópias e leituras a uma única mudança feita de uma vez.
Esses manuscritos são traduções de livros da Bíblia hebraica. Sua existência, por si só, não demonstra como Jesus pronunciava o nome nem qual forma constava nos escritos originais do Novo Testamento: são questões documentais distintas.
Como surgiu a forma Jeová
Na tradição de copistas conhecida como massorética, sinais vocálicos associados à leitura substituta foram colocados junto às consoantes do nome. Eles funcionavam como um aviso para o leitor dizer outra palavra, em vez de vocalizar o tetragrama.
A combinação das consoantes com esses sinais foi posteriormente lida como uma palavra por autores cristãos. Dessa história vieram formas latinizadas que deram origem a Jehovah e Jeová. Trata-se de uma forma com trajetória própria na cultura e nas traduções, diferente da reconstrução acadêmica Yahweh.
| Forma | O que representa |
|---|---|
| YHWH / YHVH | Representação das quatro letras hebraicas em caracteres latinos. |
| Yahweh / Iavé / Javé | Reconstrução da pronúncia amplamente empregada nos estudos bíblicos. |
| Jehovah / Jeová | Forma difundida na tradição cristã a partir da leitura combinada de consoantes e sinais vocálicos. |
| Senhor | Título usado como substituto na leitura e em muitas traduções. |
Um nome também feito de vidro e metal
A história ultrapassa as páginas. O vitral de Decorah mostra o tetragrama incorporado à arte de uma igreja cristã no século XIX. O Museu de Israel documenta outra circulação: a partir do fim do século XVI, governantes europeus passaram a colocar o nome hebraico em moedas e medalhas.
Nesses objetos, as letras participavam também da representação do poder político. Um nome preservado por escribas podia tornar-se imagem pública, reconhecível mesmo por pessoas incapazes de ler hebraico.
Por que muitas Bíblias dizem “Senhor”?
Os tradutores fazem escolhas que consideram o texto de origem, a tradição de leitura e o público da edição. A Biblica, responsável pela Nova Versão Internacional, explica que emprega o equivalente de “Senhor” em respeito ao costume judaico de não pronunciar o nome. Em algumas edições, as maiúsculas ajudam a distinguir o tetragrama de outros termos.
A prática litúrgica acrescenta suas próprias regras. Em carta de 2008, a autoridade católica responsável pelo culto orientou que o tetragrama não fosse pronunciado nas celebrações:
“Nas celebrações litúrgicas, nos cantos e nas orações, o nome de Deus na forma do tetragrama YHWH não deve ser usado nem pronunciado.”
A orientação trata do uso litúrgico; não significa que a inscrição tenha desaparecido dos monumentos ou do estudo histórico. O vitral continua visível. A pedra permanece legível. As edições bíblicas seguem registrando escolhas diferentes para o leitor.
Entre o basalto e o vidro, entre a palavra escrita e a leitura em voz alta, essas quatro letras permitem acompanhar quase três mil anos de transmissão cultural. A história do tetragrama também é a história das pessoas que o gravaram, copiaram, traduziram e decidiram como lidar com ele.