Gooldemberg Saraiva

Pesquisa e edição Gooldemberg Saraiva

Gravado em pedra, preservado em manuscritos e iluminado em vitrais, o tetragrama atravessou mudanças de idioma e de costumes. Sua trajetória ajuda a explicar por que o leitor encontra Javé, Jeová ou Senhor nas Bíblias.

Quatro letras hebraicas do tetragrama em um vitral colorido da igreja Grace, em Decorah
Tetragrama em vitral da igreja episcopal Grace, em Decorah, nos Estados Unidos, instalado pouco depois da construção de 1868. Foto: Jonathunder; correção de perspectiva por Jebulon / Wikimedia Commons. Domínio público.

No vidro, quatro letras se destacam entre cores e arabescos. Em uma pedra antiga, surgem no relato de uma vitória militar. Nas páginas de uma Bíblia, podem aparecer como um nome — ou dar lugar à palavra Senhor. Esses caminhos se cruzam na história de uma das expressões mais estudadas da tradição bíblica: YHWH.

Em hebraico, o nome é escrito יהוה. A sequência reúne quatro letras, convencionalmente representadas como YHWH ou YHVH no alfabeto latino. Daí a palavra tetragrama: uma referência aos quatro caracteres que identificam o Deus de Israel nos textos hebraicos.

יהוה

YHWH · yod, he, waw, he
O hebraico é lido da direita para a esquerda.

Antes dos livros impressos, a pedra

Um dos registros mais antigos fora da Bíblia está na Estela de Mesa, monumento do século IX a.C. preservado no Louvre, em Paris. Feita de basalto e encontrada em 1868, em território da atual Jordânia, a inscrição narra conquistas do rei de Moabe contra Israel.

O nome do Deus israelita aparece nesse relato escrito do ponto de vista de um adversário. A importância histórica do objeto está justamente aí: as quatro letras também circulavam fora dos textos que seriam transmitidos como Escritura.

Estela de Mesa, monumento de basalto com inscrições antigas, exposta no Louvre
Estela de Mesa, de cerca de 840 a.C., no Louvre. O nome YHWH ocorre na inscrição. Foto: Mbzt / Wikimedia Commons, CC BY 3.0.

Uma escrita que não registra todo o som

O hebraico antigo não empregava os sinais de vogais que seriam acrescentados aos manuscritos séculos depois. As letras do nome foram preservadas; reconstruir sua pronúncia exige comparar testemunhos linguísticos e históricos.

Yahweh, frequentemente adaptado ao português como Javé, é uma reconstrução amplamente adotada nos estudos bíblicos. Isso não equivale a possuir um registro sonoro da Antiguidade: a história da pronúncia envolve evidências indiretas e discussão especializada.

Paralelamente, consolidou-se na tradição judaica o costume supersticioso de evitar a pronúncia do nome. Na leitura, empregava-se Adonai, “Senhor”; em outros contextos, HaShem, “o Nome”. O que estava escrito e o que era dito podiam, portanto, ser diferentes.

Quando o hebraico encontrou o grego

A circulação das Escrituras em grego acrescentou outra camada à história. Alguns manuscritos antigos conservaram o nome em caracteres hebraicos dentro do texto grego. O Papiro Fouad 266b, de Deuteronômio, datado do século I a.C., é um exemplo documentado pelo pesquisador Larry Hurtado.

Outros testemunhos apresentam soluções diferentes, como Iao. Na transmissão cristã dos textos gregos, tornou-se corrente Kyrios, “Senhor”. A tradição latina empregou Dominus. Essa variedade impede resumir séculos de cópias e leituras a uma única mudança feita de uma vez.

Esses manuscritos são traduções de livros da Bíblia hebraica. Sua existência, por si só, não demonstra como Jesus pronunciava o nome nem qual forma constava nos escritos originais do Novo Testamento: são questões documentais distintas.

Como surgiu a forma Jeová

Na tradição de copistas conhecida como massorética, sinais vocálicos associados à leitura substituta foram colocados junto às consoantes do nome. Eles funcionavam como um aviso para o leitor dizer outra palavra, em vez de vocalizar o tetragrama.

A combinação das consoantes com esses sinais foi posteriormente lida como uma palavra por autores cristãos. Dessa história vieram formas latinizadas que deram origem a Jehovah e Jeová. Trata-se de uma forma com trajetória própria na cultura e nas traduções, diferente da reconstrução acadêmica Yahweh.

Por que aparecem formas diferentes?
Forma O que representa
YHWH / YHVH Representação das quatro letras hebraicas em caracteres latinos.
Yahweh / Iavé / Javé Reconstrução da pronúncia amplamente empregada nos estudos bíblicos.
Jehovah / Jeová Forma difundida na tradição cristã a partir da leitura combinada de consoantes e sinais vocálicos.
Senhor Título usado como substituto na leitura e em muitas traduções.

Um nome também feito de vidro e metal

Vitral com o tetragrama hebraico na Igreja de Saint-Germain-des-Prés, em Paris
Vitral do Tetragrama — o nome de Deus. Na Igreja de Saint-Germain-des-Prés, em Paris, o vitral representa o tetragrama, o teônimo hebraico usado como um dos nomes de Deus na Bíblia Hebraica. Imagem: Dreamstime.

A história ultrapassa as páginas. O vitral de Decorah mostra o tetragrama incorporado à arte de uma igreja cristã no século XIX. O Museu de Israel documenta outra circulação: a partir do fim do século XVI, governantes europeus passaram a colocar o nome hebraico em moedas e medalhas.

Nesses objetos, as letras participavam também da representação do poder político. Um nome preservado por escribas podia tornar-se imagem pública, reconhecível mesmo por pessoas incapazes de ler hebraico.

Por que muitas Bíblias dizem “Senhor”?

Os tradutores fazem escolhas que consideram o texto de origem, a tradição de leitura e o público da edição. A Biblica, responsável pela Nova Versão Internacional, explica que emprega o equivalente de “Senhor” em respeito ao costume judaico de não pronunciar o nome. Em algumas edições, as maiúsculas ajudam a distinguir o tetragrama de outros termos.

A prática litúrgica acrescenta suas próprias regras. Em carta de 2008, a autoridade católica responsável pelo culto orientou que o tetragrama não fosse pronunciado nas celebrações:

“Nas celebrações litúrgicas, nos cantos e nas orações, o nome de Deus na forma do tetragrama YHWH não deve ser usado nem pronunciado.”

Diretriz de 2008 da Congregação para o Culto Divino, reproduzida pela conferência dos bispos dos Estados Unidos. Tradução livre.

A orientação trata do uso litúrgico; não significa que a inscrição tenha desaparecido dos monumentos ou do estudo histórico. O vitral continua visível. A pedra permanece legível. As edições bíblicas seguem registrando escolhas diferentes para o leitor.

Entre o basalto e o vidro, entre a palavra escrita e a leitura em voz alta, essas quatro letras permitem acompanhar quase três mil anos de transmissão cultural. A história do tetragrama também é a história das pessoas que o gravaram, copiaram, traduziram e decidiram como lidar com ele.