Nos últimos anos, as igrejas evangélicas têm inovado em suas estratégias para atrair fiéis mais jovens. Se antes os cultos eram caracterizados por um tom mais formal, hoje muitas denominações apostam em um ambiente mais descontraído, com festas animadas, música eletrônica e até um “open bar” – sem álcool, é claro. A proposta é clara: manter características religiosas, mas oferecer uma experiência alinhada ao estilo de vida do mundo contemporâneo.

Um exemplo disso é a igreja evangélica Casa, de Goiânia, que tem promovido eventos como o Sunset, que mistura louvor, entretenimento e interação social. No evento, que teve a presença da influenciadora digital Karen Tabosa, 25 anos, os participantes pagam um ingresso de R$ 50 para curtir um ambiente com DJ, coquetéis coloridos e até labaredas no palco. “Não seguimos a religiosidade de forma convencional. Saio de um encontro como esse realizada”, disse Karen, que recentemente foi batizada na congregação.

Não foi a primeira vez que a igreja “A Casa” adota formatos “inovadores em seus cultos”. Anteriormente, o local já havia promovido a celebração “Vem Novinha”.
A polêmica também ocorre em um momento delicado para a igreja, que está marcada pela prisão do pastor Davi Passamani, fundador da instituição. Davi foi preso sob suspeita de crimes sexuais, mas foi solto após 20 dias de detenção, permanecendo afastado das atividades da igreja e cumprindo medidas restritivas, como o uso de tornozeleira eletrônica.
Concorrência Entre Igrejas e a Busca por Novos Fiéis
O crescimento acelerado do número de evangélicos no Brasil tem impulsionado essa disputa por fiéis. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 17 novos templos são abertos por dia no país. Com uma estimativa de que os evangélicos ultrapassem os católicos até 2032, muitas igrejas têm se moldado para conquistar essa fatia da população, especialmente os jovens.
O sociólogo Fábio Lanza, do Laboratório de Estudos sobre Religiões e Religiosidade, explica que a maneira como os jovens interpretam a fé tem se transformado. “O sagrado intocável perdeu espaço, e o foco agora é vivenciar a religião de forma mais prática e objetiva”, diz ele. Segundo uma pesquisa do Datafolha, os fiéis evangélicos sentem que sua fé influencia diretamente a vida profissional (nota 8,9 numa escala de 0 a 10), amizades (8,1) e relacionamentos amorosos (7,7).

Estratégias Modernas para Conectar-se à Geração Digital
Com a juventude cada vez mais imersa no universo digital, os líderes religiosos perceberam a necessidade de adaptar suas mensagens e estruturas físicas. Muitos templos passaram por reformas para incluir telões de LED, iluminação profissional e som de alta qualidade – criando um ambiente semelhante ao de grandes eventos musicais.
Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), reconhece essa necessidade de renovação. “Quem não se atualiza perde fiéis”, afirma o pastor, que investiu pesadamente na modernização dos templos. Em sua filial de Niterói, por exemplo, um espaço de 11.000 metros quadrados – anteriormente uma casa de shows – agora oferece atividades como beach tennis, vôlei de praia e corrida para os membros da igreja.
Já a igreja We are Reino, em Balneário Camboriú, aposta em um ambiente altamente instagramável para atrair jovens. Os frequentadores são recepcionados por voluntários segurando placas com frases motivacionais enquanto saboreiam drinks não alcoólicos. “Procurei, procurei, mas não achava uma igreja para mim. Aqui, vi que tudo era diferente”, relata Beatriz Maiara, fisiculturista de 32 anos, que compartilha suas experiências na igreja com seguidores nas redes sociais.
Pastores Influencers e a Monetização da Fé
A nova abordagem das igrejas também tem transformado os pastores em verdadeiros influenciadores digitais. Muitos acumulam milhões de seguidores e cobram cachês elevados para pregar em diferentes templos. Um dos nomes mais conhecidos, Junior Rostirola, autor do best-seller Café com Deus Pai, viaja o país promovendo eventos religiosos e palestras motivacionais. Os valores das chamadas “ofertas de honra” podem chegar a R$ 20.000 por pregação.
Até mesmo a tradicional Lagoinha de Alphaville, em São Paulo, entrou na onda, criando uma área VIP para receber jogadores de futebol e artistas. “Na igreja, ninguém é mais importante do que ninguém. Porém, infelizmente, algumas pessoas não podem viver uma vida comum por causa da fama”, justifica o pastor André Valadão.
Comunidades Menores e o “Sistema de Células”
Apesar do crescimento das megaigrejas, muitas denominações perceberam que o contato pessoal ainda é essencial para manter a fidelidade dos membros. Por isso, tem crescido o chamado “sistema de células”, em que pequenos grupos de até 15 pessoas se reúnem em casas para compartilhar experiências. Essa estrutura lembra muito o funcionamento da venda direta de cosméticos, onde os membros mais ativos podem assumir papéis de liderança dentro da congregação.
Maurício Soares, administrador da igreja Novos Começos, explica que essa abordagem tem dado resultados. “Toda semana, contabilizamos 30.000 pessoas participando dessas reuniões domiciliares”, conta ele.
A Nova Era da Religião
O cenário evangélico no Brasil passa por uma transformação sem precedentes. Com uma combinação de tecnologia, entretenimento e gestão empresarial, as igrejas buscam tornar a fé mais acessível e envolvente para as novas gerações. Seja com festas sem álcool, shows de pop gospel ou cultos transmitidos ao vivo nas redes sociais, a meta é clara: manter o crescimento da comunidade evangélica e garantir que os jovens se sintam parte desse movimento. (Via Veja)