Via BBC Brasil
Vitor Tavares
Da BBC News Brasil em São Paulo

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Coqueiros, águas mornas e gastronomia farta convivem, hoje, com uma realidade marcada pelo domínio de facções criminosas em alguns dos principais destinos turísticos do Nordeste brasileiro. Praias famosas como Porto de Galinhas, em Pernambuco, Pipa, no Rio Grande do Norte, e Jericoacoara, no Ceará, tornaram-se áreas estratégicas para o tráfico de drogas e o exercício de poder paralelo, segundo relatos de moradores, autoridades e pesquisadores.

A presença do crime organizado nessas localidades segue, em grande parte, fora do campo de visão dos turistas. Roubos e conflitos nas áreas centrais são coibidos pelas próprias facções como forma de preservar a circulação de visitantes, que movimenta tanto a economia local quanto o comércio ilegal de drogas. Para quem vive nessas cidades, no entanto, a violência e a intimidação fazem parte do cotidiano.

Turismo, dinheiro e expansão das facções

Pesquisadores apontam que o avanço das facções para vilas turísticas faz parte de um processo nacional de expansão do crime organizado, antes concentrado em grandes centros urbanos e regiões de fronteira. A combinação de festas frequentes, turistas de alto poder aquisitivo e estrutura limitada de segurança pública tornou essas áreas especialmente atrativas.

Segundo promotores e investigadores, esses destinos funcionam como verdadeiras “filiais” do tráfico. Uma única caderneta apreendida pela Polícia Civil em Porto de Galinhas indicou movimentação de quase R$ 10 milhões em um ano, apenas com a venda de drogas.

Porto de Galinhas: câmeras, toque de recolher e tribunal do crime

Em Porto de Galinhas, a facção conhecida como Trem Bala, também chamada de Comando do Litoral Sul, controla comunidades onde vive grande parte da força de trabalho do turismo. Moradores relatam a existência de câmeras instaladas pelas gangues, proibição de acionar a polícia e exigência de identificação até para agentes públicos entrarem em determinadas áreas.

Porto de Galinhas. Foto: GETTY IMAGES

O grupo impõe regras informais que vão desde a proibição de roubos até a mediação de conflitos entre vizinhos. Quem desobedece pode ser punido pelo chamado “tribunal do crime”. Investigações apontam casos de tortura, execuções e cemitérios clandestinos em áreas de mangue.

Apesar de números oficiais de homicídios mais baixos em comparação com anos anteriores, autoridades admitem que a redução ocorre pela ausência de disputas entre facções rivais, e não pela melhora da segurança.

Pipa: organização, hierarquia e controle territorial

Na praia de Pipa, em Tibau do Sul, o domínio é atribuído ao Sindicato do Crime, facção surgida no Rio Grande do Norte. A atuação é descrita como altamente organizada, com funções definidas, salários, escalas de trabalho e vigilância permanente por meio de “olheiros”.

Pipa. Foto: GETTY IMAGES

O tráfico se expandiu junto ao crescimento de festas e do turismo noturno, com venda de drogas ocorrendo de forma aberta em alguns períodos. A facção também mantém um código interno rígido, com regras sobre comportamento, uso de drogas e resolução de conflitos.

O equilíbrio é rompido quando grupos rivais tentam ocupar o território. Um triplo homicídio ocorrido no centro da vila, em dezembro, foi atribuído a uma disputa entre facções.

Jericoacoara: controle velado e violência recorrente

Em Jericoacoara, um dos cartões-postais do Ceará, o Comando Vermelho domina a vila desde meados da década passada. Moradores relatam abordagens agressivas, intimidação e presença constante de traficantes em becos e áreas de circulação turística.

Jericoacoara. Foto: GETTY IMAGES

O assassinato de um turista de 16 anos, em dezembro de 2024, marcou um ponto de inflexão na visibilidade do problema. Segundo a Polícia Civil do Ceará, o jovem foi confundido com integrante de uma facção rival.

Pesquisadores apontam que a chegada do crime organizado acompanha a transformação do perfil turístico da região, com crescimento de festas, consumo de drogas e circulação de grandes quantias em dinheiro. A proximidade com portos estratégicos e rotas internacionais também contribui para o interesse das facções.

Violência estrutural e ausência do Estado

Especialistas destacam que a atuação policial, centrada em prisões pontuais, tem pouco impacto estrutural. Jovens sem perspectivas são facilmente recrutados, enquanto lideranças presas são rapidamente substituídas.

No Ceará, dados oficiais indicam que confrontos entre facções são responsáveis pela maior parte dos homicídios. Mesmo em áreas onde há uma sensação momentânea de tranquilidade, moradores relatam medo constante e episódios de violência extrema, incluindo execuções públicas e transmissões de julgamentos do crime pela internet.

Paraíso turístico sob controle paralelo

Apesar da imagem vendida ao mundo, destinos turísticos do Nordeste convivem com uma realidade marcada pela presença do crime organizado, que impõe regras, controla territórios e transforma o turismo em uma engrenagem lucrativa do tráfico. Para moradores, falar sobre o assunto ainda é arriscado. Para o poder público, o desafio segue sendo enfrentar causas estruturais que vão além da repressão policial.