Reportagem especial · Meio ambiente e eleições
Candidato do PL acena com a retirada de restrições ambientais e já propôs eliminar a reserva legal. Pesquisas mostram como menos proteção e fiscalização podem acelerar a derrubada, empobrecer a mata e ampliar danos que ultrapassam as propriedades.
Redação DQ Notícias ·
Uma floresta começa a desaparecer antes que a última árvore caia. Primeiro, perde espaço. Depois, pode perder a ligação entre seus trechos, o abrigo de animais, a umidade e a capacidade de se recuperar de um incêndio. É esse conjunto de funções que entra em risco quando a proteção ambiental é tratada como um obstáculo a remover.
A promessa feita por Flávio Bolsonaro (PL), nesta segunda-feira (19), em Marabá, no Pará, aponta nessa direção. O candidato afirmou que pretende ampliar a regularização fundiária e acabar com restrições ambientais que considera motivadas por ideologia. Ao defender a liberdade de exploração dos imóveis, disse que o produtor poderá plantar e criar gado sem as limitações que criticou.
O risco de um eventual governo que transforme esse discurso em menos proteção ou fiscalização é concreto: mais vegetação disponível para derrubada, mais dificuldade para conter infrações e maior pressão sobre animais, plantas e recursos hídricos. São mecanismos conhecidos pela ciência, embora a candidatura ainda não tenha detalhado quais regras pretende mudar.
O discurso de liberdade esbarra na função da floresta
Em uma motocarreata, Flávio apresentou a regularização como garantia de que o ocupante terá a terra reconhecida no papel. Ligou essa promessa à defesa da propriedade privada e à retirada de exigências ambientais. A declaração foi registrada pela Reuters e pelo portal de jornalismo ambiental ((o))eco.
“Você vai poder plantar, criar gado, vai fazer o que quiser na sua terra.”
Flávio Bolsonaro, em Marabá, em 19 de outubro. Trecho registrado na cobertura do ato.
A justificativa apresentada pelo candidato é que parte das restrições teria caráter ideológico e impediria o aproveitamento da propriedade. No discurso reproduzido, ele não identificou os dispositivos que pretende eliminar nem explicou quais salvaguardas ambientais acompanhariam a mudança.
Essa lacuna importa. Dar segurança jurídica a um produtor e permitir a eliminação de vegetação protegida são decisões diferentes. A propriedade tem limites ambientais porque o que acontece dentro da cerca pode atingir o rio, o animal que atravessa a região e a comunidade que vive adiante.
Flávio já propôs acabar com a reserva legal
O histórico legislativo dá peso à preocupação. Em abril de 2019, Flávio e Marcio Bittar apresentaram o PL 2.362/2019, que revogava o capítulo do Código Florestal dedicado à reserva legal. A explicação oficial do Senado registra o objetivo de possibilitar a exploração econômica dessas áreas.
A proposta atingia uma das principais proteções da vegetação nativa em imóveis rurais. Se aprovada daquela forma, retiraria o capítulo que estabelece a obrigação de conservar uma parcela da propriedade, com percentuais que variam conforme a região e a formação vegetal.
O Código Florestal mantém exigências para imóveis particulares. Em áreas de floresta na Amazônia Legal, a regra geral é conservar 80% do imóvel como reserva legal, observadas as exceções legais. A lei também protege áreas como determinadas faixas de rios e o entorno de nascentes.
A reserva admite uso econômico por manejo sustentável nas condições previstas em lei. Já a conversão de vegetação nativa para outro uso depende de autorização. Portanto, a proteção não elimina toda atividade produtiva: ela define como e onde essa atividade pode ocorrer.
O risco pode crescer por duas portas
A primeira é mudar a lei para reduzir a vegetação que precisa permanecer conservada. Áreas hoje protegidas poderiam passar a ser abertas para pastagem, lavoura ou outros usos, conforme o alcance da alteração.
A segunda é deixar a lei de pé e enfraquecer sua aplicação. Menos capacidade de fiscalizar, responsabilizar e interromper atividades ilegais reduz a proteção efetiva. Uma norma que não é cumprida deixa de funcionar como barreira à destruição.
A declaração em Marabá não permite saber qual desses caminhos a candidatura pretende adotar. Mas o projeto de 2019 e a promessa de retirar restrições tornam necessária uma resposta sobre ambos.
Para um animal, a derrubada é a perda da casa e da comida
Um trecho de mata reúne alimento, abrigo e condições de reprodução. Quando vira pastagem, não desaparecem apenas árvores: desaparecem os ambientes usados por aves, insetos e mamíferos. O que resta ao redor também pode ser afetado.
Imagine um bairro cortado por grandes faixas onde já não é possível circular com segurança. Na floresta fragmentada, parte das espécies enfrenta uma dificuldade semelhante. Os ambientes ficam isolados, e os caminhos entre alimento, abrigo e parceiros se tornam mais difíceis.
O efeito varia entre as espécies. Para animais que precisam de áreas amplas, a redução do habitat estreita as possibilidades de sobrevivência. A Proteção Animal Mundial descreve esse problema para a onça-pintada: a perda de ambientes e de presas pode aumentar sua exposição a rodovias e ao conflito com pessoas.
Veja o que muda quando a mata vira ilhas
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Mata contínua: ambientes conectados oferecem caminhos entre diferentes trechos de habitat.
Mata fragmentada: clareiras e áreas convertidas podem interromper conexões e ampliar o isolamento. A dificuldade de atravessar essas faixas depende da espécie e da paisagem.
Ilustração conceitual, sem escala. Não representa um imóvel real, uma taxa de desmatamento nem uma projeção eleitoral.
A mata pode ficar em pé e perder parte da vida
Desmatamento e degradação não são sinônimos. O primeiro remove a vegetação. A segunda altera a floresta que permanece: muda sua estrutura, reduz a qualidade dos habitats e pode empobrecer o conjunto de espécies.
Em um estudo publicado na Nature em 2016, pesquisadores analisaram 36 pequenas bacias hidrográficas do Pará. O levantamento reuniu plantas, aves e besouros para avaliar o efeito combinado da derrubada e das perturbações na mata restante.
A pesquisa mostrou que incêndios, extração seletiva de madeira, bordas e isolamento podem ampliar substancialmente a perda de valor de conservação. Olhar apenas a área derrubada subestima o estrago. Uma cobertura ainda verde pode esconder uma floresta mais pobre e vulnerável.
Para a flora, isso significa que conservar um número de árvores não basta. Importam as espécies presentes, sua distribuição e as condições em que conseguem continuar vivendo. Para a fauna, importa a qualidade do ambiente que sobrou.
| Processo | Consequência |
|---|---|
| Conversão para outro uso | Remove plantas e os habitats utilizados pelos animais. |
| Fragmentação | Separa trechos de mata e dificulta a manutenção de populações florestais. |
| Exploração seletiva | Altera a estrutura e a composição da vegetação, com efeitos sobre a fauna associada. |
| Incêndios | Danificam a vegetação e podem aumentar sua vulnerabilidade a novas perturbações. |
| Mais bordas expostas | Amplia o contato da mata com condições externas que favorecem ressecamento e degradação. |
O enfraquecimento da fiscalização já deixou sinais mensuráveis
Um estudo liderado por Luciana Gatti, publicado na Nature em 2023, comparou o período de 2010 a 2018 com os anos de 2019 e 2020. A equipe reuniu medições atmosféricas, dados de desmatamento, fogo e aplicação da legislação.
Os pesquisadores relacionaram a redução da fiscalização ao aumento da derrubada, da queima de vegetação, da degradação e das emissões de carbono. A análise ajuda a explicar por que a estrutura dos órgãos ambientais e a aplicação das sanções têm consequências sobre a floresta.
A ligação com a promessa atual está no mecanismo: se a retirada de restrições vier acompanhada de menos capacidade de controle, o risco de punição pode cair e a atividade ilegal ganhar espaço. Preservar a redação de uma lei, sozinho, não garante que ela será aplicada.
A consequência atravessa a cerca e alcança água e clima
As árvores devolvem umidade à atmosfera. A perda e a degradação da mata interferem nesse funcionamento, além de liberar parte do carbono armazenado na vegetação. Por isso, decisões sobre o uso da terra têm uma dimensão coletiva.
Uma análise publicada na Nature em 2024, liderada por Bernardo Flores, reuniu evidências de como aquecimento, secas, desmatamento e incêndios podem se reforçar. A floresta perturbada pode perder capacidade de recuperação e ficar mais exposta a novos danos.
É um processo de retroalimentação: a mata perde árvores, o ambiente fica mais vulnerável e novas perturbações dificultam a recuperação. A preservação precisa considerar esse conjunto, em vez de olhar cada abertura de área como um episódio isolado.
Animais: o que significa perder a conexão entre habitats?
Fragmentos isolados podem limitar deslocamentos e o acesso a recursos. O efeito depende da espécie: uma faixa aberta não representa o mesmo obstáculo para todos os animais.
Plantas: por que uma floresta verde pode estar degradada?
Incêndios e exploração de madeira podem alterar a composição e a estrutura da mata. A presença de árvores não informa, sozinha, se a diversidade e as condições originais foram mantidas.
Água: por que o problema ultrapassa o imóvel?
A circulação da umidade e a continuidade dos rios não seguem os limites das propriedades. Alterações na vegetação podem afetar processos compartilhados por diferentes territórios.
As áreas protegidas mostram o valor de manter barreiras à conversão
Dados da Coleção 11 do MapBiomas, com mapas de 1985 a 2025, ajudam a dimensionar a importância dessa rede. No conjunto de áreas protegidas considerado pelo levantamento — terras indígenas, unidades de conservação e terras quilombolas —, a vegetação nativa ocupa 98% da cobertura.
da cobertura das áreas protegidas consideradas pelo MapBiomas é vegetação nativa. O dado se refere a esses territórios e não à totalidade da Amazônia ou às reservas legais privadas.
O levantamento também identificou a pastagem como primeiro uso em uma média de 77% dos casos de desmatamento da série. Isso não torna toda atividade agropecuária ilegal. Mostra, porém, por que ampliar a conversão de vegetação é uma escolha com efeito direto sobre a paisagem.
Título de terra não é garantia automática de conservação
A regularização fundiária merece uma análise própria. Reconhecer direitos e esclarecer quem responde por um imóvel pode trazer segurança jurídica. O resultado ambiental depende das condições que acompanham o título e da situação da área.
Uma pesquisa sobre o programa Terra Legal, publicada em 2020, analisou 10.647 proprietários entre 2011 e 2016. Encontrou aumento do desmatamento entre pequenos e médios proprietários titulados, enquanto os grandes permaneceram, em geral, sem alteração significativa em resposta ao programa.
Os autores observaram maior derrubada entre titulados quando aumentavam os preços de produtos agrícolas e do gado. A conclusão é que a titulação, isolada de outras políticas, não entrega necessariamente o benefício ambiental esperado.
Já um estudo de 2022 sobre regimes fundiários no Brasil mostrou que direitos mal definidos se associam a mais desmatamento, mas também que diferentes formas de proteção produzem resultados distintos. A síntese divulgada pela Universidade de Bonn destaca que áreas protegidas reduziram a derrubada de modo mais consistente.
A questão para a candidatura é, portanto, o desenho da política: quem receberia o reconhecimento, com quais obrigações e sob qual controle. Misturar a garantia de direitos com uma promessa genérica de liberdade de exploração deixa essas respostas em aberto.
O debate também interessa ao Ceará
O projeto de 2019 não se limitava à Amazônia: propunha retirar o capítulo da reserva legal do Código Florestal. Essa obrigação também protege vegetação nos imóveis rurais do Ceará, onde a regra geral é de 20%, além das demais exigências aplicáveis.
Por isso, o histórico não diz respeito apenas a uma floresta distante. Uma mudança nacional precisa ser avaliada também por quem depende de vegetação conservada e de recursos hídricos em outras regiões, inclusive no interior cearense.
O que está em jogo na escolha de governo
O risco ambiental associado à eleição de Flávio está na possibilidade de transformar a promessa em redução de proteção e enfraquecimento do controle. A ciência oferece razões consistentes para preocupação com esse caminho: a perda de floresta pode vir acompanhada de empobrecimento da biodiversidade, mais fogo e menor capacidade de recuperação.
O alcance dependerá das medidas adotadas, de eventuais mudanças no Congresso e da forma de conduzir a administração ambiental. A declaração ainda não permite calcular hectares perdidos nem identificar quais populações de animais seriam atingidas. Permite cobrar uma explicação sobre como o candidato pretende evitar esses danos.
Os limites ambientais existem porque a vida da floresta e os efeitos de sua destruição ultrapassam o dono da terra. Para animais, plantas e comunidades que dependem desse ambiente, a diferença entre conservar e retirar essa proteção pode decidir quais condições de vida continuarão existindo.
Fontes, estudos e documentos — clique para consultar
- Reuters/UOL, 19/10/2026 — declaração em Marabá e ausência de detalhamento das restrições citadas.
- ((o))eco, 19/10/2026 — cobertura do ato e fotografia da campanha.
- Senado Federal: PL 2.362/2019 — autoria, objetivo e arquivamento.
- Código Florestal, Lei 12.651/2012 — reserva legal, APPs e regras para uso da vegetação.
- Barlow et al., Nature (2016) — perdas de biodiversidade por desmatamento e perturbações. Síntese do Stockholm Environment Institute.
- Gatti et al., Nature (2023) — fiscalização, degradação e emissões. Versão dos autores em repositório universitário.
- Flores et al., Nature (2024) — interações entre secas, aquecimento, desmatamento e incêndios.
- Probst et al., Nature Sustainability (2020) — impactos da titulação no Terra Legal. Resumo da pesquisa no AidData.
- Pacheco e Meyer, Nature Communications (2022) — regimes fundiários e desmatamento. Síntese da Universidade de Bonn.
- MapBiomas, Coleção 11, 1985–2025 — cobertura de áreas protegidas e usos após o desmatamento.
- Proteção Animal Mundial — habitat e pressões sobre a onça-pintada.